botânico

“O Jardim Botânico de Lisboa é um espaço surpreendente situado mesmo no centro da cidade. Estendendo-se por 4 hectares, entre a Avenida da Liberdade e o Príncipe Real, é um jardim com elevado valor para a cidade, o conhecimento, a cultura e o lazer.
Neste jardim cruzam-se a curiosidade sobre a natureza com a tranquilidade e o bem-estar, o trabalho científico com o descanso e o passeio de visitantes portugueses e estrangeiros. Nele se cruzam a tradição com a construção de um futuro onde se preservam e se gerem de forma sustentada os recursos naturais.
Inaugurado em 1878, o Jardim Botânico de Lisboa foi plantado para apoiar o ensino da botânica na então Escola Politécnica, mas sempre desempenhou um importante papel como sítio de passeio e lazer entre a população estudantil e das zonas envolventes. O Jardim Botânico permanece na memória de várias gerações como lugar de troca de ideias e de afetos.
Aqui, os visitantes podem encontrar plantas representativas de todo o mundo e de todos os tempos, que não encontram com facilidade em qualquer outro jardim. O Jardim Botânico é muito mais que um jardim da Universidade ou de Lisboa, é um jardim classificado como Monumento Nacional.
Hoje, o Jardim Botânico de Lisboa faz parte do MUHNAC – Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa – e continua a desempenhar uma importante missão na conservação das espécies, na preservação da biodiversidade, na regulação do clima e na gestão sustentável da cidade.” (retirado daqui)
>> o jardim botânico faz parte das minhas memórias de infância. era um dos destinos frequentes nas visitas mensais à capital, com a minha avó. por força das circunstâncias, dos tempos, e da própria cidade (que parece ter voltado costas a esta pérola), foi com tristeza que deixou de fazer parte das minhas rotinas. é com tristeza que digo que nunca lá levei os meus filhos mais pequenos.
mas, foi com muito agrado que recebi as recentes notícias de que o Botânico apresentou um projeto de requalificação no orçamento participativo de Lisboa 2013.

para ajudar a angariar votos e alertar o publico para esta iniciativa, o Jardim Botânico tem promovido, entre outras atividades, feiras temáticas todos os sábados, com visitas guiadas ao jardim.

no próximo sábado, é a vez dos artesãos chegarem ao botânico. e eu lá estarei, com muito gosto, a fazer relembrar a saudosa feira do Jardim da Estrela.

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conto com a vossa visita!, e o Botânico conta com o vosso voto :)

48

48 foram os anos de ditadura em Portugal.

48 é nome do filme de Susana Sousa Dias que hoje apresentamos, em estreia nacional, no Cineclube de Santarém.

Sobre o filme, em si, enquanto objecto cinematográfico, há muito que se lhe diga. Quase que podia não ser um filme, uma vez que não há imagens em movimento.

Toda a narrativa é montada tendo como pano de fundo imagens de presos políticos, torturados da PIDE, onde a câmara apenas faz travellings subtis, como que a hipnotizar o espectador para fixar os olhos nos olhos das pessoas ali retratadas. Explica a realizadora: «Todas as fotografias têm uma história por detrás. O que me interessava era perceber o que a foto nos está a mostrar e o que nos está a esconder.»

E depois, claro, há o som. E é aqui que a aposta da realizadora ganha outra dimensão.

Com cada fotografia há uma voz, presente, actual, que nos relata o que vê. Como se as pessoas retratadas nas fotografias fossem elas mesmas espectadores do seu próprio passado.

É um filme que nos provoca sensações, que nos leva a reflectir com elas. Sentimos o desespero, sentimos a dor, sentimos a agonia, e acima de tudo, sentimos a brutalidade a que estiveram sujeitos os presos e torturados pela PIDE.

Nunca a vigilância inquisitorial e a brutalidade do Estado Novo foram tão expostos perante nós.

E por isso é que penso, sinceramente, que este é um filme obrigatório e mais do que necessário nos dias que correm.

Compreendo a desilusão que muitos sentem, 37 anos depois de Abril de 74, ao verem o país que temos.

Compreendo a falta de alento geral e esta depressão colectiva em que nos encontramos.

Compreendo a inércia a que tantos se renderam.

Mas não compreendo, e não compreenderei nunca, que se digam coisas como “foi para isto que se fez o 25 de abril?…

Porque parece que as pessoas se esqueceram do mais fundamental: o golpe de estado de há 37 anos pôs fim a uma ditadura onde não havia liberdade.

O bem essencial e primordial: LIBERDADE.

Antes do dia 25 vivíamos num país onde podíamos ser presos, torturados, vilipendiados, numa ditadura que não deixava pensar de forma diferente.

Só por isso, valeu a pena fazer-se o 25 de Abril.

Se hoje não estamos contentes com o país onde vivemos, temos a nossa quota de responsabilidade.

Hoje temos a liberdade de poder sair à rua, temos a liberdade de nos manifestarmos, temos a liberdade de não fazer nada, temos a liberdade de aceitar as coisas, temos a liberdade de criticar o estado em que vivemos, temos a liberdade de votarmos em quem nós quisermos, temos a liberdade de viver as nossas vidas sem intervenção repressiva e violenta do estado.

E isso não tem preço.

Parece-me uma injustiça tremenda para todos aqueles cidadão e cidadãs anónimos, espancados, mortos e torturados, não estarmos agradecidos pelo fim da ditadura da repressão e do medo.

Celebrar Abril será sempre recordar e homenagear aqueles que resistiram, aqueles que disseram não, aqueles que pagaram com as suas vidas a liberdade que hoje temos.

Por isso a importância deste filme: para que não se apague a memória, para que se saiba que Portugal era um país de gente amordaçada.

é a trabalhar que a gente paga o jantar…

… mas foi a trabalhar que a gente fez a faca para o cortar.

Este refrão do Sérgio Godinho, escrito em 76, em pleno PREC, tem muito que se lhe diga.

“é a trabalhar que a gente paga o jantar”

certo. sem dúvida.

“mas foi a trabalhar que a gente fez a faca para o cortar”

Aqui é que fico fascinada com as inúmeras leituras que pode ter:

A faca para o cortar simboliza o operário que terá efectivamente feito um objecto – a faca – utilizando os meios de produção de um patrão?

Ou será a fome, que se acentua ainda mais com o esforço do trabalho?

Não sei.

Conhecço esta música desde pequenina – o nome do álbum que a edita é precisamente “De pequenino se torce o destino” – e sempre me fascinou.

Porque é que hoje a trago até aqui, tão desenquadrada de tudo?

Por causa do episódio Deolinda, pois claro.

Nada tenho contra os Deolinda, antes pelo contrário, e acho a música “que parva que sou” realmente genial e hino de uma certa geração, que talvez será a minha.

(in)felizmente, não partilho uma série de angústias com os meus contemporâneos, nem tão pouco a minha realidade é a dos demais. Não sei o que é estar a estudar – no ensino superior – sem estar a sustentar os meus próprios estudos, assim como não sei o que é ter 20 e poucos anos, e andar à procura de um primeiro emprego, sem grandes obrigações nem responsabilidades na vida. Quando o fiz já tinha o peso (bom!) de dois filhos para “sustentar”.

Posto isto, e feitas as devidas ressalvas, sou solidária com todos aqueles e aquelas que comigo cresceram e estudaram, que tinham uma ideia de vida, que eram trabalhadores, empenhados e inteligentes, e continuam numa vida perpetuadamente adiada, sem perspectivas, sem salário, sem mais nada que seja a desilusão e o sonhar com futuro que há-de vir. nem que seja tarde de mais…

Não acho que a “culpa” da situação actual seja do excesso de licenciados, nem da falta de operários especializados, como tanto já se insinuou por aí. Tanto uma como outra realidade são antes de mais fruto da tal geração anterior, que desbaratou o futuro do país, que não soube ter nem visão nem estratégia. Que empurrou os jovens adultos de hoje, os meus contemporâneos, para um futuro incerto e adiado.

Mas acho que a esta geração, a minha, tem de ser apontada outro tipo de culpa. A despolitização e o descomprometimento político-social. O achar que “não é nada comigo”. A indiferença.

Se no PREC era in ter posição política e toda a gente sabia se era de direita ou de esquerda, agora é out falar de política, “os políticos são todos a mesma coisa”, “os partidos não servem para nada”, esquerda e direita são apenas conceitos de lateralidade geografico-espacial, e votar não serve de nada.

É esta precisamente a geração que está encurralada e sem saída. “que parva que sou” que não me preocupei com o mundo à minha volta enquanto ele não me bateu à porta, podiam dizer os Deolinda.

Voltemos então ao Sérgio Godinho, nome conhecido por todos e obra desconhecida por muitos. Voltemos às canções de intervenção, se com isso despertarmos consciências. Venham Deolindas e outros que tais cantar gritos de revolta.

Esperemos é que quando chegarem melhores dias não se esqueçam que a luta é feita todos os dias, e não só quando nos convém.

Uma sociedade justa e solidária constrói-se todos os dias e precisa do empenho de todos.

Levanto-me, acordo cedo
vou para um trabalho que para mim
não tem segredos
a minha vida não é para atirar ao lixo
não sou coisa nem sou bicho
nem sou carne para canhão, não!

Quem me usa não me merece
só merece o meu desprezo quem abusa
da minha força e da minha competência
e até mesmo da impaciência
de dar de comer aos meus filhos

É a trabalhar
que a gente paga o jantar
mas foi a trabalhar
que a gente fez a faca para o cortar

Se hoje ainda vivo afaimado
quem me domina tem os seus dias contados
a minha luta não é sozinho que a faço
tem tantos no mesmo passo
braço a braço somos muitos

É a noite, quando adormeço
é como fazer a viagem de regresso
para um outro dia, um manhã mais libertado
com as correntes no passado
e a certeza no futuro

É a trabalhar
que a gente paga o jantar
mas foi a trabalhar
que a gente fez a faca para o cortar

documentários

Ontem dediquei o meu dia inteiramente ao DocLisboa.

Além das várias exibições diárias, é bom que se diga que o Doc faz verdadeiro serviço público, como bem disse Serge Tréfaut ao Ipsilon, não apenas pela formação de público, mas por trazer o cinema às pessoas, ainda para mais se falamos de documentário, um género ignorado e até desprezado pela maioria das pessoas.
workshops, masterclasses com realizadores e aquilo que ontem me ocupou o dia quase todo: a Videoteca instalada na Culturgest, de acesso público e gratuito, onde estão disponíveis para visionamento integral mais de 1300 filmes, não só os que estão na selecção oficial do festival, depois de serem exibidos as duas vezes programadas, mas também toda uma série de filmes que não foram seleccionados. Foi a estes que dediquei ontem mais atenção….

Fora da competição, chamaram-me especialmente a atenção 3 filmes sobre a temática feminista e dos direitos reprodutivos.
O feminismo. O que é hoje ser feminista? Faz sentido ser feminista nos dias de hoje?
Vivemos ou não numa sociedade onde homens e mulheres tem deveres e direitos iguais, ou será que tudo isso não passa de uma ideia politicamente correcta, e na verdade não há igualdade entre homens e mulheres?
O que reivindicam hoje as feministas, direitos iguais, ou assumpção das diferenças de género?
E quais são essas diferenças de género, será que existem mesmo?
Todas estas questões são levantadas em dois documentários distintos, embora não necessariamente respondidas:

“Ella(s)”, de David Baute, um documentário construído à volta de 3 mulheres à procura da memória de Mercedes Pinto, uma mulher que na Espanha Franquista lutou pelo direito ao divórcio como medida de “higiene”, defendeu os direitos das mulheres e foi exilada pelas suas condutas.


“La domination masculine”, de Patric Jean, uma produção franco-belga que põe em evidência os preconceitos de género existentes na sociedade europeia moderna, através de exemplos caricatos, como o condicionamneto na educação das crianças, ou de outros mais graves, como a violência doméstica, uma praga das sociedades actuais. Filme polémico, com reacções bastante distintas e inflamadas por parte do público.

A propósito ainda do tema – os direitos das mulheres e o feminismo – uma entrevista que descobri do Saramago a uma televisão italiana:


Dentro do tema, mas focando os direitos reprodutivos:
“A woman´s womb – politics of reproduction”, de Mathilde Damoisel, um documentário da Temps Noir acerca das políticas de esterilização forçada levadas a cabo pelo governo Peruano. Uma realidade escondida do mundo que é trazida para a ribalta. Disponível para visionamento aqui:

http://temps.noir.free.fr/engventrefemme_extrait.html

Noutra linha, completamente diferente, tenho de realçar o documentário “Cruzeiro Seixas – O Vício da Liberdade”, um documentário com argumento de Alberto Serra realizado por Ricardo Espírito Santo, da Terra Líquida Filmes. Uma justa homenagem ao Surrealismo Português, cujo caminho já tinha sido aberto com o documentário que ganhou o prémio do DocLisboa de melhor documentário português em 2004: “Autografia”, sobre Mário Cesariny, da autoria de Miguel Gonçalves Mendes, o realizador de “José e Pilar”, exibido em ante-estreia na inauguração do DocLisboa, que chega às salas no mês de Novembro.

http://player.vimeo.com/video/15358796

Para terminar, aquele que é apontado com uma das “obras-primas” a concurso, que conto ver ainda no dia 23 no São Jorge: “Passion – Last Stop Kinshasa”, de Jorg Jeshel e Brigitte Kramer: