barcelona

visitei barcelona pela primeira vez no ano 2000. foi uma visita de fugida, que durou apenas um dia, onde vi a cidade de passagem.
a memória que retive foi boa: uma cidade linda, arquitetonicamente fascinante, cheia de vida e cosmopolita. ficou a vontade de voltar um dia, com mais tempo e mais calma.

essa oportunidade chegou este ano, e pude planear e desfrutar 10 dias na capital da catalunha.

no entanto, apesar de ter gostado muito da cidade, voltei com mais dúvidas do que certezas relativamente a barcelona e principalmente ao turismo massificado que está a tornar a cidade num autêntico parque de diversões (estas palavras não são minhas, mas sim dos habitantes locais).

a verdade é que é quase impossível andar em barcelona sem passar por multidões de pessoas. a cidade, apesar de grande e muito bem dotada de todo o tipos de transportes publicos eficientes, está repleta de gente. demasiada gente. são poucos os catalães que se vêm na rua, isso é mais que certo. mesmo nas zonas mais residenciais e menos turísticas se encontram hordas de visitantes. entrar em qualquer museu ou monumento é sinónimo de ficar mais de uma hora na fila para comprar bilhete, e depois mais uma hora de espera para entrar. não há canto nem recanto onde não se vejam máquinas fotográficas apontadas. não há carrer nem rambla sem rios e rios de gente.

comecei a perceber esta realidade logo no primeiro dia. ao sair da estação de metro da praça da catalunha o cenário era imponente: casario monumental, a rambla a perder de vista em direção ao mar e gente. muita, muita, muita, muita gente.

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pensei “ok, este será o ponto nevrálgico da cidade velha, um ícone da cidade, é normal que assim seja”.
mais à frente, no emblemático mercado “la boqueria” e o cenário repete-se: multidões de turistas e bancas vocacionadas mais para eles do que para os habitantes de barcelona, que ao longo de séculos usavam aquele mercado para fazerem as suas compras de produtos frescos e agora transformado em frutarias e bancas de charme para turistas.

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chegando ao bairro gótico, confirmei as suspeitas que vinha a sentir: esta massificação não é bem vista nem bem-vinda e a atestá-lo não faltam cartazes e faixas nas varandas das casas a dizerem coisas como “volem un bairre digne” “shhh…us plau” “tourist – you are the terrorist” “no volem ser un monocultiu turistic”, entre tantas outras. a par das bandeiras da catalunha presentes em muitas varandas, e apelos ao voto no referendo pela independência a realizar no próximo dia 9 de novembro, as são as frases mais lidas em cartazes afixados um pouco por todos os bairros.

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é certo que setembro ainda é um mês de férias e deslocações a destinos turisticos. é muito provável que parte deste turismo desenfreado abrande a partir de outubro, mas a questão está longe de ser pacífica e uma novidade para os barceloneses. prova disso são os inúmeros documentários e artigos sobre o tema, e a procupação dos habitantes locais em manter o turismo como uma actividade sustentável para a cidade e para as suas vidas diárias.

a questão está longe de ser pacífica. o turismo representa 14% do PIB da cidade, gera emprego e promove ativamente a recuperação de edifícios e monumentos, entre outras mais-valias. a cidade tem vários monumentos considerados património mundial pela unesco, e estes merecem ser visitados por todos. barcelona sem turistas seria certamente uma cidade diferente, para pior.
mas como promover e sustentar o turismo, sem degradar a qualidade de vida dos habitantes locais e sem descaracterizar a cidade?… essa é a grande questão, ainda sem resposta. poderemos dizer que será a grande questão de várias cidades europeias, que têm ganho mas também sofrido com o turismo de massas. a nossa lisboa é só mais um exemplo de cidade a caminho da conversão em parque temático para turistas…

claro que eu também contribui para o numero de turistas de barcelona, e é claro que também eu fui aos sítios turísticos. e é claro que também gostei muito da cidade e do que vi, mas sobre isso falarei noutro post.
hoje, por tudo o que aqui ficou dito, escolho esta foto como postal ilustrado da cidade:

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e recomendo vivamente este documentário, onde está tudo dito. preto no branco.

botânico

“O Jardim Botânico de Lisboa é um espaço surpreendente situado mesmo no centro da cidade. Estendendo-se por 4 hectares, entre a Avenida da Liberdade e o Príncipe Real, é um jardim com elevado valor para a cidade, o conhecimento, a cultura e o lazer.
Neste jardim cruzam-se a curiosidade sobre a natureza com a tranquilidade e o bem-estar, o trabalho científico com o descanso e o passeio de visitantes portugueses e estrangeiros. Nele se cruzam a tradição com a construção de um futuro onde se preservam e se gerem de forma sustentada os recursos naturais.
Inaugurado em 1878, o Jardim Botânico de Lisboa foi plantado para apoiar o ensino da botânica na então Escola Politécnica, mas sempre desempenhou um importante papel como sítio de passeio e lazer entre a população estudantil e das zonas envolventes. O Jardim Botânico permanece na memória de várias gerações como lugar de troca de ideias e de afetos.
Aqui, os visitantes podem encontrar plantas representativas de todo o mundo e de todos os tempos, que não encontram com facilidade em qualquer outro jardim. O Jardim Botânico é muito mais que um jardim da Universidade ou de Lisboa, é um jardim classificado como Monumento Nacional.
Hoje, o Jardim Botânico de Lisboa faz parte do MUHNAC – Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa – e continua a desempenhar uma importante missão na conservação das espécies, na preservação da biodiversidade, na regulação do clima e na gestão sustentável da cidade.” (retirado daqui)
>> o jardim botânico faz parte das minhas memórias de infância. era um dos destinos frequentes nas visitas mensais à capital, com a minha avó. por força das circunstâncias, dos tempos, e da própria cidade (que parece ter voltado costas a esta pérola), foi com tristeza que deixou de fazer parte das minhas rotinas. é com tristeza que digo que nunca lá levei os meus filhos mais pequenos.
mas, foi com muito agrado que recebi as recentes notícias de que o Botânico apresentou um projeto de requalificação no orçamento participativo de Lisboa 2013.

para ajudar a angariar votos e alertar o publico para esta iniciativa, o Jardim Botânico tem promovido, entre outras atividades, feiras temáticas todos os sábados, com visitas guiadas ao jardim.

no próximo sábado, é a vez dos artesãos chegarem ao botânico. e eu lá estarei, com muito gosto, a fazer relembrar a saudosa feira do Jardim da Estrela.

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conto com a vossa visita!, e o Botânico conta com o vosso voto :)

48

48 foram os anos de ditadura em Portugal.

48 é nome do filme de Susana Sousa Dias que hoje apresentamos, em estreia nacional, no Cineclube de Santarém.

Sobre o filme, em si, enquanto objecto cinematográfico, há muito que se lhe diga. Quase que podia não ser um filme, uma vez que não há imagens em movimento.

Toda a narrativa é montada tendo como pano de fundo imagens de presos políticos, torturados da PIDE, onde a câmara apenas faz travellings subtis, como que a hipnotizar o espectador para fixar os olhos nos olhos das pessoas ali retratadas. Explica a realizadora: «Todas as fotografias têm uma história por detrás. O que me interessava era perceber o que a foto nos está a mostrar e o que nos está a esconder.»

E depois, claro, há o som. E é aqui que a aposta da realizadora ganha outra dimensão.

Com cada fotografia há uma voz, presente, actual, que nos relata o que vê. Como se as pessoas retratadas nas fotografias fossem elas mesmas espectadores do seu próprio passado.

É um filme que nos provoca sensações, que nos leva a reflectir com elas. Sentimos o desespero, sentimos a dor, sentimos a agonia, e acima de tudo, sentimos a brutalidade a que estiveram sujeitos os presos e torturados pela PIDE.

Nunca a vigilância inquisitorial e a brutalidade do Estado Novo foram tão expostos perante nós.

E por isso é que penso, sinceramente, que este é um filme obrigatório e mais do que necessário nos dias que correm.

Compreendo a desilusão que muitos sentem, 37 anos depois de Abril de 74, ao verem o país que temos.

Compreendo a falta de alento geral e esta depressão colectiva em que nos encontramos.

Compreendo a inércia a que tantos se renderam.

Mas não compreendo, e não compreenderei nunca, que se digam coisas como “foi para isto que se fez o 25 de abril?…

Porque parece que as pessoas se esqueceram do mais fundamental: o golpe de estado de há 37 anos pôs fim a uma ditadura onde não havia liberdade.

O bem essencial e primordial: LIBERDADE.

Antes do dia 25 vivíamos num país onde podíamos ser presos, torturados, vilipendiados, numa ditadura que não deixava pensar de forma diferente.

Só por isso, valeu a pena fazer-se o 25 de Abril.

Se hoje não estamos contentes com o país onde vivemos, temos a nossa quota de responsabilidade.

Hoje temos a liberdade de poder sair à rua, temos a liberdade de nos manifestarmos, temos a liberdade de não fazer nada, temos a liberdade de aceitar as coisas, temos a liberdade de criticar o estado em que vivemos, temos a liberdade de votarmos em quem nós quisermos, temos a liberdade de viver as nossas vidas sem intervenção repressiva e violenta do estado.

E isso não tem preço.

Parece-me uma injustiça tremenda para todos aqueles cidadão e cidadãs anónimos, espancados, mortos e torturados, não estarmos agradecidos pelo fim da ditadura da repressão e do medo.

Celebrar Abril será sempre recordar e homenagear aqueles que resistiram, aqueles que disseram não, aqueles que pagaram com as suas vidas a liberdade que hoje temos.

Por isso a importância deste filme: para que não se apague a memória, para que se saiba que Portugal era um país de gente amordaçada.

é a trabalhar que a gente paga o jantar…

… mas foi a trabalhar que a gente fez a faca para o cortar.

Este refrão do Sérgio Godinho, escrito em 76, em pleno PREC, tem muito que se lhe diga.

“é a trabalhar que a gente paga o jantar”

certo. sem dúvida.

“mas foi a trabalhar que a gente fez a faca para o cortar”

Aqui é que fico fascinada com as inúmeras leituras que pode ter:

A faca para o cortar simboliza o operário que terá efectivamente feito um objecto – a faca – utilizando os meios de produção de um patrão?

Ou será a fome, que se acentua ainda mais com o esforço do trabalho?

Não sei.

Conhecço esta música desde pequenina – o nome do álbum que a edita é precisamente “De pequenino se torce o destino” – e sempre me fascinou.

Porque é que hoje a trago até aqui, tão desenquadrada de tudo?

Por causa do episódio Deolinda, pois claro.

Nada tenho contra os Deolinda, antes pelo contrário, e acho a música “que parva que sou” realmente genial e hino de uma certa geração, que talvez será a minha.

(in)felizmente, não partilho uma série de angústias com os meus contemporâneos, nem tão pouco a minha realidade é a dos demais. Não sei o que é estar a estudar – no ensino superior – sem estar a sustentar os meus próprios estudos, assim como não sei o que é ter 20 e poucos anos, e andar à procura de um primeiro emprego, sem grandes obrigações nem responsabilidades na vida. Quando o fiz já tinha o peso (bom!) de dois filhos para “sustentar”.

Posto isto, e feitas as devidas ressalvas, sou solidária com todos aqueles e aquelas que comigo cresceram e estudaram, que tinham uma ideia de vida, que eram trabalhadores, empenhados e inteligentes, e continuam numa vida perpetuadamente adiada, sem perspectivas, sem salário, sem mais nada que seja a desilusão e o sonhar com futuro que há-de vir. nem que seja tarde de mais…

Não acho que a “culpa” da situação actual seja do excesso de licenciados, nem da falta de operários especializados, como tanto já se insinuou por aí. Tanto uma como outra realidade são antes de mais fruto da tal geração anterior, que desbaratou o futuro do país, que não soube ter nem visão nem estratégia. Que empurrou os jovens adultos de hoje, os meus contemporâneos, para um futuro incerto e adiado.

Mas acho que a esta geração, a minha, tem de ser apontada outro tipo de culpa. A despolitização e o descomprometimento político-social. O achar que “não é nada comigo”. A indiferença.

Se no PREC era in ter posição política e toda a gente sabia se era de direita ou de esquerda, agora é out falar de política, “os políticos são todos a mesma coisa”, “os partidos não servem para nada”, esquerda e direita são apenas conceitos de lateralidade geografico-espacial, e votar não serve de nada.

É esta precisamente a geração que está encurralada e sem saída. “que parva que sou” que não me preocupei com o mundo à minha volta enquanto ele não me bateu à porta, podiam dizer os Deolinda.

Voltemos então ao Sérgio Godinho, nome conhecido por todos e obra desconhecida por muitos. Voltemos às canções de intervenção, se com isso despertarmos consciências. Venham Deolindas e outros que tais cantar gritos de revolta.

Esperemos é que quando chegarem melhores dias não se esqueçam que a luta é feita todos os dias, e não só quando nos convém.

Uma sociedade justa e solidária constrói-se todos os dias e precisa do empenho de todos.

Levanto-me, acordo cedo
vou para um trabalho que para mim
não tem segredos
a minha vida não é para atirar ao lixo
não sou coisa nem sou bicho
nem sou carne para canhão, não!

Quem me usa não me merece
só merece o meu desprezo quem abusa
da minha força e da minha competência
e até mesmo da impaciência
de dar de comer aos meus filhos

É a trabalhar
que a gente paga o jantar
mas foi a trabalhar
que a gente fez a faca para o cortar

Se hoje ainda vivo afaimado
quem me domina tem os seus dias contados
a minha luta não é sozinho que a faço
tem tantos no mesmo passo
braço a braço somos muitos

É a noite, quando adormeço
é como fazer a viagem de regresso
para um outro dia, um manhã mais libertado
com as correntes no passado
e a certeza no futuro

É a trabalhar
que a gente paga o jantar
mas foi a trabalhar
que a gente fez a faca para o cortar

documentários

Ontem dediquei o meu dia inteiramente ao DocLisboa.

Além das várias exibições diárias, é bom que se diga que o Doc faz verdadeiro serviço público, como bem disse Serge Tréfaut ao Ipsilon, não apenas pela formação de público, mas por trazer o cinema às pessoas, ainda para mais se falamos de documentário, um género ignorado e até desprezado pela maioria das pessoas.
workshops, masterclasses com realizadores e aquilo que ontem me ocupou o dia quase todo: a Videoteca instalada na Culturgest, de acesso público e gratuito, onde estão disponíveis para visionamento integral mais de 1300 filmes, não só os que estão na selecção oficial do festival, depois de serem exibidos as duas vezes programadas, mas também toda uma série de filmes que não foram seleccionados. Foi a estes que dediquei ontem mais atenção….

Fora da competição, chamaram-me especialmente a atenção 3 filmes sobre a temática feminista e dos direitos reprodutivos.
O feminismo. O que é hoje ser feminista? Faz sentido ser feminista nos dias de hoje?
Vivemos ou não numa sociedade onde homens e mulheres tem deveres e direitos iguais, ou será que tudo isso não passa de uma ideia politicamente correcta, e na verdade não há igualdade entre homens e mulheres?
O que reivindicam hoje as feministas, direitos iguais, ou assumpção das diferenças de género?
E quais são essas diferenças de género, será que existem mesmo?
Todas estas questões são levantadas em dois documentários distintos, embora não necessariamente respondidas:

“Ella(s)”, de David Baute, um documentário construído à volta de 3 mulheres à procura da memória de Mercedes Pinto, uma mulher que na Espanha Franquista lutou pelo direito ao divórcio como medida de “higiene”, defendeu os direitos das mulheres e foi exilada pelas suas condutas.


“La domination masculine”, de Patric Jean, uma produção franco-belga que põe em evidência os preconceitos de género existentes na sociedade europeia moderna, através de exemplos caricatos, como o condicionamneto na educação das crianças, ou de outros mais graves, como a violência doméstica, uma praga das sociedades actuais. Filme polémico, com reacções bastante distintas e inflamadas por parte do público.

A propósito ainda do tema – os direitos das mulheres e o feminismo – uma entrevista que descobri do Saramago a uma televisão italiana:


Dentro do tema, mas focando os direitos reprodutivos:
“A woman´s womb – politics of reproduction”, de Mathilde Damoisel, um documentário da Temps Noir acerca das políticas de esterilização forçada levadas a cabo pelo governo Peruano. Uma realidade escondida do mundo que é trazida para a ribalta. Disponível para visionamento aqui:

http://temps.noir.free.fr/engventrefemme_extrait.html

Noutra linha, completamente diferente, tenho de realçar o documentário “Cruzeiro Seixas – O Vício da Liberdade”, um documentário com argumento de Alberto Serra realizado por Ricardo Espírito Santo, da Terra Líquida Filmes. Uma justa homenagem ao Surrealismo Português, cujo caminho já tinha sido aberto com o documentário que ganhou o prémio do DocLisboa de melhor documentário português em 2004: “Autografia”, sobre Mário Cesariny, da autoria de Miguel Gonçalves Mendes, o realizador de “José e Pilar”, exibido em ante-estreia na inauguração do DocLisboa, que chega às salas no mês de Novembro.

http://player.vimeo.com/video/15358796

Para terminar, aquele que é apontado com uma das “obras-primas” a concurso, que conto ver ainda no dia 23 no São Jorge: “Passion – Last Stop Kinshasa”, de Jorg Jeshel e Brigitte Kramer:

a memória do dia 25

Todos os anos é a mesma coisa: chegamos a Abril e as comemorações do dia 25 sabem sempre a pouco, enquanto também passam despercebidas à maioria da população, demasiado preocupada e anestesiada no seu dia a dia, para quem esta data é apenas mais um feriado e uma data histórica no calendário.

Depois, nas vésperas do dia 25, as televisões vão às escolas perguntar aos meninos e meninas se sabem o que foi o 25 de abril, e ouvimos relatos inconstantes, imprecisões históricas, confusão de personagens, e palavras como “liberdade” são usadas como conectores de discurso, sem se perceber muito bem o que significam.

As televisões saem também à rua e fazem a mesma pergunta aos graúdos, que invariavelmente respondem com desalento, e ao mesmo tempo que citam nomes como Salgueiro Maia, dizem pérolas do género “no tempo do salazar é que estávamos bem”. Parece cada vez mais que comemorar o 25 de Abril não é politica nem socialmente correcto.

A esquerda agarra-se a um revisionismo histórico enquanto que a direita pura e simplesmente pretende fazer de conta que esse dia foi um episódio menor na longa história e epopeias do nosso país. Pelo meio, surgem umas iniciativas disparatadas e incipientes, que pretende celebrar “a liberdade”, sem perceberem muito bem o que isso significa, e demasiado ingénuas para fazerem justiça ao grande momento da história contemporânea do nosso país.

Há claramente uma falta de conhecimento em relação ao 25 de Abril, e principalmente à realidade que se vivia no país antes da data.

Hoje já quase ninguém se lembra do que foram 48 anos de ditadura, nem o mal que isso fez ao país e às suas gentes. E essa falta de conhecimento vem sobretudo do pudor de querer saber, parece que há uma espécie de tabu de falar das coisas, meter o dedo na ferida, contar a história com os protagonistas que ainda estão vivos.

Provavelmente devemos estar todos à espera que o 25 de Abril comemore o seu centenário, tal como a República, para então festejarmos em grande, fazermos palestras e grandes exposições, recontando a história da maneira que melhor convém, de forma polida e embelezada, de preferência sem mencionar de sobremaneira os crimes, torturas e atrocidades que se cometeram durante a ditadura, que levaram a que houvesse a ruptura do regime e acontecesse a Revolução.

Eu pertenço à geração pós-25 de Abril. Nasci e cresci nos anos verdes da democracia, num país onde se acreditava que era possível um futuro melhor e mais justo, onde as palavras fraternidade e solidariedade não eram um bicho de sete cabeças. Tive a possibilidade de crescer  numa família e num contexto que me deu acesso a compreender a dimensão de Abril, mas infelizmente cada vez mais constato que esta mesma geração a que pertenço não se comprometeu com a data e não tem nenhuma carga afectiva com ela relacionada.

Vejo isso principalmente nos filhos desta geração, que são também os meus, e que nada sabem, porque nada lhes é ensinado.No currículo do ensino básico é quase inexistente uma abordagem séria e dedicada ao 25 de Abril, e as memórias vão-se perdendo. A informação não passa.

Hoje em dia não se fala do que era portugal antes do 25 de Abril. Quase ninguém se lembra o que foi a guerra colonial, a realidade dos jovens de então, com o seu futuro continuamente em suspenso, o medo, as prisões, a tortura, as deserções, os exílios, a miséria e a ignorância. Já niguém fala da pide, nem questiona os seus métodos, não sei por excesso de pudor se por branqueamento da história.

Parece que não vale a pena, que foi uma página em branco da nossa história e que ninguém quer falar dela. E entretanto vamos perdendo os testemunhos importantíssimos dos que viveram esta realidade, dos perseguidos, dos presos políticos, de todos aqueles que clandestinamente e com grande sacrifício pessoal foram fazendo a resistência.

Por outro lado ainda, a natureza na nossa revolução – única na história – passa também ao lado de todos. Parece que já quase ninguém se lembra que os militares levaram a cabo um golpe de estado não para ficarem no poder, e instituírem eles uma nova forma de ditadura, mas sim para dar a liberdade e democracia ao povo.

Uma revolução onde não foram disparadas armas e se verteram cravos em vez de sangue é uma coisa demasiado bela e poética para cair no esquecimento colectivo.

E é por todas estas razões muitas mais, que amanhã vamos contar o 25 de Abril às crianças. Trazer-lhes o testemunho mais bonito da nossa história, celebrar com histórias e canções aquela que foi…

“…a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo”

dia internacional da mulher

Muitas pessoas perguntam hoje, qual o sentido de comemorar o  Dia Internacional da Mulher. Muitas mulheres sentem-se até de certa forma ofendidas como o dia, como se fossem inferiores e precisassem de um dia especial a si dedicado, uma espécie de epitáfio/esmola sem sentido nem sentimento…

Mas afinal, onde é começou este dia, e qual o propósito?

Há 153 anos, no dia 8 de Março de 1857, teve lugar aquela que terá sido, em todo o mundo, uma das primeiras acções organizadas por trabalhadores do sexo feminino. Centenas de mulheres das fábricas de vestuário e têxteis de Nova Iorque iniciaram uma marcha de protesto contra os baixos salários, o período de 12 horas diárias e as más condições de trabalho. Durante a greve deu-se um incêndio que causou a morte a cerca de 130 manifestantes.
Em 1903, profissionais liberais norte-americanas criaram a Women’s Trade Union League. Esta associação tinha como principal objectivo ajudar todas as trabalhadoras a exigirem melhores condições de trabalho.

Em 1908, mais de 14 mil mulheres marcharam nas ruas de Nova Iorque: reivindicaram o mesmo que as operárias no ano de 1857, bem como o direito de voto.

Será que as feministas/socialista de há 100 anos atrás teriam noção do que seria a sociedade de hoje? Será que elas teriam noção que as mulheres conseguiriam, pois claro, a plena integração no mercado de trabalho e a total emancipação?

Certamente se espantariam de saber que após todas estas conquistas, as mulheres ainda seriam discriminadas em pleno séc. XXI pelas questões biológicas e de género…

Se há mais de 150 anos o motivo que levou as mulheres à rua era claro – trabalho e direitos iguais para homens e mulheres – a verdade é que na sociedade de hoje temos tendência para pensar facilmente que já não há injustiças de género e que as mulheres ocupam lugares de topo no trabalho. Como se estivesse tudo bem.

Mas não está. As mulheres, ainda que plenamente integradas no mercado de trabalho e ocupando lugares de topo, sofrem enormes pressões. As que são mães, não podem dedicar-se integralmente a essa condição, precisamente pelas limitações que o trabalho e as responsabilidades profissionais lhes impõem. As que não são mães, vêm muitas vezes os seus projectos de maternidade adiados devido ao peso que o trabalho ocupa nas suas vidas, e à possibilidade (nada remota) de serem despedidas ou substituídas quando engravidarem.

Quem nunca ouviu as histórias de entrevistas de emprego, onde se pergunta a uma mulher se tem filhos, e em caso de resposta negativa, se está a pensar engravidar? Será que fazem a mesma pergunta se for um homem: “O Senhor, está a pensar engravidar a sua companheira?…”

Estas situações passam-se em qualquer empresa respeitável, aos olhos de toda a gente, e com o conhecimento de todos, e essa situação, só por si, seria o suficiente para justificar a existência do dia de hoje.

Depois, por outro lado, temos as mulheres que abdicam de carreiras profissionais para se dedicarem a 100% à maternidade. São poucos os apoios que encontram por parte da sociedade, e esbarram muitas vezes com a perplexidade dos que as rodeiam, por terem deixado carreiras promissoras, para estarem em casa “sem fazer nada”, ou serem domésticas.

Por aqui se vê a preconceito que existe relativamente aquelas que fazem trabalho doméstico (leia-se na sua casa, cuidando da sua família): este é visto como um trabalho menor e nada valorizado (não há ordenado, não há férias, não há descontos para a segurança social) e como sendo um último recurso para quem não consegue um emprego.

É fácil percebermos, nos meandros do feminismo do séc.XXI, que o que condiciona as mulheres, e as torna discriminadas relativamente aos homens, são sem dúvida as questões biológicas. As mulheres (ainda) são as únicas capazes de gerar vida, e abnegadamente geram um novo ser durante 9 meses. E são essas discriminações que a mim, particularmente, mais me interessam combater…

Os direitos da mulher durante a gravidez e parto estão ainda longe de ser uma realidade, tanto nos países em desenvolvimento como nos países desenvolvidos e industrializados.

As complicações decorrentes da gravidez e parto são a maior causa da mortalidade feminina no mundo. Nos países pobres e subdesenvolvidos, não há serviços de saúde disponíveis e as mulheres acabam por morrer de complicações que seriam facilmente resolvidas por uma parteira ou enfermeira especialista. Noutros casos ainda, são os homens que vedam o acesso das mulheres aos cuidados de saúde, por questões de crenças, baixos rendimentos ou até exercício desmedido de controlo e poder.

Nos países desenvolvidos a realidade é outra, ainda que a discriminação continue. Os cuidados de saúde são cada vez menos de acesso universal, e quem tem dinheiro para pagar é quem fica melhor servido. Por outro lado, os negócios das companhias de seguros e indústria farmacêutica, têm sucessivamente colocado os seus interesses financeiros à frente dos direitos das mulheres. Milhares de cesarianas são feitas anualmente no Brasil e EUA, por exemplo, sem qualquer justificação médica, apenas porque é um procedimento mais bem pago e feito em menor tempo, trazendo consequentemente maior rentabilidade aos prestadores de cuidados. Um pouco por todo o mundo industrializado, há cada vez mais mulheres a sofrerem de complicações graves decorrentes de partos demasiado instrumentalizados e traumáticos, e as taxas de mortalidade materna têm vindo a subir à medida que vemos as cesarianas a aumentar

Por todas estas realidades, continua a ser preciso lutar por mais direitos. É já em Setembro de 2010 que se irá discutir em Estrargurbo: Birth Is a Human Rights Issue”. O nascimento é uma questão de Direitos Humanos.

Hoje, como há 150 anos atrás, é importante dar voz e visibilidade às mulheres.
(hoje, escrevo também aqui)

Nascer em Portugal

É com muito agrado que começo a ver a opinião pública a debruçar-se seriamente neste tema, assim como me congratulo pelo crescente número de movimentos civis, científicos e académicos que se têm dedicado à temática do parto em Portugal. O futuro deve ser construído com informação, responsabilidade e ponderação e creio que dentro de algum tempo poderemos começar a ver mudanças significativas no atendimento ao parto em Portugal.

Exemplo disso são os seguintes movimentos, surgidos recentemente e todos eles comprometidos em melhorar o atendimento à gravidez e parto, questionando práticas e propondo soluções para problemas:

- Movimento Nascer Melhor;

- Pelo Direito ao Parto Normal;

- Iniciativa “Parto Normal” – Livro editado pela APEO (Associação Portuguesa dos Enfermeiros Obstetras).

Nos dias 20 e 21 de Novembro (próxima sexta e sábado) decorrerá no Porto um Congresso debruçado neste tema – Nascer em Portugal.

Eu terei a difícil mas honrosa tarefa de representar a Humpar na mesa-redonda que encerra o Congresso no dia 21, dedicada ao tema “Repensar o Nascimento em Portugal”, e por isso lanço a todos os leitores deste blogue o repto de me darem a sua opinião…

-Será que se “nasce bem” em Portugal?

-Será que as mulheres são respeitadas nas suas escolhas?

-O que é que mudavam, se pudessem?

-O que é que acham que está bem?

-Quais são as opções que gostavam de ver no Serviço Nacional de Saúde?

-De que forma acham que pode ser melhorado o atendimento ao Parto em Portugal?…

Usem e abusem da caixa de comentários e deixem a vossa opinião em relação a este tema. Tudo farei para incluir as vossas sugestões na minha intervenção.

porque o patchwork também é uma arte popular…

…não podia deixar de me associar a esta causa!

Juntem-se a nós e venham bordar!

A Língua de fora, já! Pelo Museu de Arte Popular, bordar bordar!

Amanhã, Sábado, comemora-se o Dia dos Museus. Por isso, resolvemos festejar o Museu de Arte Popular, um museu fechado que queremos ver vivo, reaberto, renovado.

Após a aprovação na semana passada, em Conselho de Ministros, da instalação do Museu da Língua no edifício do MAP, esta é a nossa última hipótese de protestar contra uma decisão arbitrária, leviana e culturalmente injustificável.

Assim, a partir das 12h00 de sábado, diante do Museu de Arte Popular, voluntários e voluntárias bordarão colectivamente um Lenço de Namorados gigante, declarando a sua estima ao Museu de Arte Popular. Quando a noite cair, suspenderemos o resultado na fachada do Museu.

Junte-se a nós. Fornecemos os materiais mas precisamos de mãos. Se não sabe bordar, não faz mal: esta é a ocasião de experimentar. Traga os amigos, a mãe, a tia, as crianças – o importante é mostrar que há quem não se conforme com o fim anunciado do Museu de Arte Popular.

Organizadoras:

Catarina Portas, empresária A Vida Portuguesa / Quiosque de Refresco
Rosa Pomar
Joana Vasconcelos, Artista Plástica
Raquel Henriques da Silva, Professora de História de Arte, FCSH Universidade Nova de Lisboa

parto em casa | parto normal | cesariana

O tema está na ordem do dia e nas conversas do povo.

Seja pelo interesse gerado pela proximidade do dia da mãe, seja porque finalmente as pessoas querem falar no assunto, a verdade é que o interesse da comunicação social é notório:

Hoje, daqui a pouco, às 14h, no Sociedade Civil (RTP2), o tema é “Parto Natural ou Cesariana?”. A Associação Doulas de Portugal estará representada (e bem) pela Carla Guiomar.

No domingo, dia 3 (dia da Mãe) a SIC vai exibir na Grande Reportagem um trabalho da jornalista Manuela Vicêncio “9 meses depois” pretende ser um retrto de como se nasce em Portugal, numa perspectiva dos partos em casa.

Vejam, comentem, participem!

Em Maio assinalar-se-á a Semana Mundial Pelo Parto Respeitado (de 11 a 17) e participação de todos é necessária a fim de contribuírem para a construção de um modelo de assistência ao parto que seja melhor para todos, e que vá ao encontro das necessidades dos utentes.