Semana Mundial pelo Parto Respeitado – 7 a 13 de Maio (parte II)

As intervenções desnecessárias são um dos capítulos mais polémicos na discussão do parto humanizado.

Com efeito, cada vez mais assistimos a partos instrumentalizados, manipulados, e com dia e hora marcada. Será que as mulheres estão a perder a capacidade biológica de parir? Será que os nossos aparelhos reprodutores estão lentamente a falir, precisando assim de tanta “ajuda” para parir os nossos filhos? Será que a evolução da espécie humana nos está ironicamente a condenar à extinção, ao não sermos capazes de completar o ciclo reprodutivo sem qualquer ajuda externa?

Não me parece que seja assim.

O advento da tecnologia e os avanços vertiginosos da ciência têm alterado drasticamente a nossa presença no mundo e consequentemente também a nossa maneira de viver.

Hoje em dia podemos assistir a este “excesso de tecnologia” e industrialização, por exemplo, na agricultura. Qualquer pessoa sabe da dificuldade que é encontrar alimentos “biológicos” e sem organismos geneticamente modificados. Toda a gente sabe que o sabor das alfaces não é o mesmo de há 10 anos, que os coentros não têm o mesmo cheiro e que a carne não é mais do que um “composto” de hormonas e rações.

Já em 2002, o Dr. Michel Odent fez referência a este paralelismo entre a industrialização da agricultura e a industrialização do parto no belíssimo livro “the Farmer and the Obstetrician”.

Na sua busca por uma maior produtividade e planificação, o ser humano tem levado os recursos planetários a extremos complicados, polémicos e críticos.

Da mesma forma, a medicalização do parto e a sua consequente “industrialização” têm levado a que os seres humanos tenham mudado a sua concepção em relação ao nascimento.

Hoje em dia, a grande maioria das pessoas não concebe a ideia de um parto em casa como algo seguro e perfeitamente normal, assim como não consegue imaginar um parto, ainda que hospitalar, sem qualquer tipo de intervenção, e sem uma “equipa médica especializada” com todo o equipamento de ponta disponível. Just in case

Just in case de quê? De que algo corra mal, é a resposta tão frequente como comum.

A nossa concepção em relação ao parto mudou. Não acreditamos que o corpo feminino está preparado biologicamente para isso, numa consequência natural dos nove meses de gestação. E como a tecnologia está sempre disponível, é fácil “cair em tentação” e usá-la mesmo quando não é necessária.

A questão não seria tão importante se fossem apenas algumas franjas minoritárias a questionar estas situações. Mas a verdade é que cada vez mais um número maior de mulheres vem falar sobre a sua experiência de parto de um forma traumática, desiludida e frustrada. Algo está mal… Mesmo aquelas que sofreram intervenções com a justificação de salvar as suas vidas ou a dos seus bebés, sentem-se muitas vezes defraudadas, enganadas e desiludidas com a maneira como a situação foi gerida.

O aumento das intervenções não veio baixar o número de complicações associadas ao parto (aumentando-as até!) e o grau de satisfação das mulheres e casais em relação ao nascimento de um filho tem-se vindo a deteriorar neste quadro de assistência.

Em Portugal ainda é um bocado tabu falar do tema do “excesso de intervenções”: são poucas as mulheres que dão a cara a criticar as equipas médicas por excesso de intervenção ou intervenções desnecessárias. Ao mesmo tempo, os médicos usam indiscriminadamente o termo “risco de vida” para mãe ou bebé para justificar o excesso de intervenções.

Já me Espanha, esta causa da Humanização do Parto está a ser amplamente discutida, e nota-se muito mais à vontade por parte das mulheres em criticar os modelos de assistência.

O vídeo que deixo hoje é uma peça produzida pela TVE acerca precisamente das intervenções desnecessárias.

Vale mesmo a pena ver e ouvir até ao fim – o cenário descrito é sem dúvida muito idêntico ao português…

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4 thoughts on “Semana Mundial pelo Parto Respeitado – 7 a 13 de Maio (parte II)

  1. Também li a notícia no público de hoje e ao mesmo tempo veêm artigos a contar que o S. João, por exemplo já vai instituir novas medidas, resta saber até que ponto vai fazer a sensibilização para as mesmas, pois pelo que vejo à minha volta, a mãe já vai muitas vezes preparada para exigir anestesias e intervenções desnecessárias pelo medo da dor. Dor essa que se esquece de uma forma mágica, de tal forma que ninguém consegue defini-la. A natureza sabe o que faz!

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  2. No meu segundo parto, feito pela minha ginecologista/obstetra de há muitos anos e com quem tenho muita confiança, deixei para a hora H (porque queria apanhar a médica de surpresa para não me convencer do contrário) o pedido que tinha já desde o primeiro filho: não quero episiotomia. Em periodo de expulsão e sentada (outra exigência minha) disse-lhe: não quero que corte. Só se for extremamente necessário. Ela olhou-me com surpresa, mas a minha segurança não lhe deram coragem para responder. Em meia dúzia de puxões o V. veio ao mundo sem me provocar nenhum “estrago”. Horas depois a médica confessou-me que estava tão tentada a cortar porque ele teria saido em 2 puxões. Mas conteve-se pelo meu pedido. Mas que aquilo já era um hábito tão intrínseco, que lhe foi dificil controlar-se. Escusado será dizer, o quão orgulhosa fiquei de mim. Mudar estas mentalidades tem de partir de nós e da confiança que temos de ter nas nossas capacidades. E muita vezes o problema é mesmo a falta de confiança no nosso corpo e do que somos capazes.
    Obrigado por levantares estas questões.

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  3. A propósito … há minutos ouvi na rádio que, em Portugal e nos serviços hospitalares privados, são efectuadas mais do dobro das cesarianas do que em meio hospitalar público.
    Independentemente de poder estar a crescer o nível de consciencialização da importância de um parto mais humanizado, certo é que, segundo me parece, grande parte das mulheres ainda acha perfeitamente normal, não apenas fazer uma cesariana, como (pior) escolher fazer uma cesariana, podendo ter um parto natural.
    Julgo que a esta postura se encontrará subjacente algum facilistismo das mulheres grávidas, incentivado pela cultura médica dominante, na medida em que o colocar-se totalmente nas mãos de um médico as dispensa de um certo tipo de esforço pessoal.
    Por isso, acho extremamente importante que os movimentos ligados à humanização do parto em Portugal cresçam e ganhem força, para que este estado de coisas vá mudando.
    Obrigado, Rita por mais este excelente post.
    E bom fim de semana – é finalmente sexta :)

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