working class hero

Em resposta à Rita, que deixou um comentário no post de ontem, aproveito a minha disponibilidade para escrever sobre um assunto demasiado complexo, sobre o qual costumo receber alguns emails…

Se vivo só dos meus “trabalhos manuais”? Se tenho outro emprego? Se sou sempre assim tão feliz e contente?

Não à 1ª pergunta, Sim à 2ª, Nem pensar à 3ª!

Tenho um emprego “normal”, como tantas das pessoas que aqui me leêm. Como é que tenho tempo? Também já aqui falei várias vezes que é basiacamente uma questão de organização (e eu não sou uma pessoa organizada no verdadeiro sentido da palavra) e de gestão do dia a dia. Há muitas coisas que deixo de fazer para poder ter tempo para mim, para fazer o que me apetece, dento de certas limitações. Desde há dois anos a esta parte, vendo alguns dos trabalhos que faço, e claro que é um income bem-vindo, tendo em conta que tenho 4 filhos (com todas as despesas daí decorrentes) e o meu salário é magro, como o de tantos portugueses.

Mas não foi uma coisa planeada, do tipo: “Olha, e se agora fizesse mantas para vender?!” O que aconteceu foi que aquilo que sempre foi um hobby começou a ter proporções maiores do que alguma vez imaginara, e até por uma questão prática de poder ter dinheiro para comprar mais matéria prima (leia-se tecidos) para este hobby tão dispendioso, comecei a vender algumas das minhas peças.

Não me arrependo nada, antes pelo contrário. Se gostava de viver só deste traballho? Claro que sim, até para poder ter mais tempo livre, que é coisa que ultimamente não abunda. Mas até lá vou-me contentando em desempenhar as minhas funções profissionais com o maior brio e empenho, e contentando-me com os serões e fins-de-semana para fazer aquilo que me dá prazer.

Nunca soube ao certo aquilo que queria ser quando fosse grande, oscilei entre enfermeira, estilista, professora, actriz, jornalista… mas nunca soube o que queria “ser”. No liceu escolhi humanidades e depois na Faculdade optei por Antropologia, que é/era um curso que ninguém escolhia…

Sempre achei que a minha prioridade seria “ser feliz” e não aumentar os zeros na conta bancária. Como fui mãe cedo, e tive que começar a trabalhar ainda a estudar, depressa percebi que o trabalho seria mais um meio de pôr comida na mesa, e não necessariamente uma forma de alcançar felicidade. Essa somos nós que a fazemos, dia-a-dia, ao darmos valor aquilo que temos e às pessoas que nos rodeiam.

Se só falo de “coisas bonitas” neste blogue, não quer dizer que não tenha dias miseráveis, que não grite com os meus filhos, e que não haja dias que acabo com lágrimas nos olhos e uma sensação de impotência, mas para mim o mais importante são todos os outros, em que me vou deitar com o coração a transbordar.

Acho que o mais importante, é as pessoas não se deixarem levar pelas amarguras da vida… Que pensem pela sua prórpia cabeça, que tenham ideias próprias, que não se deixem abater, e muito menos “encarneirar”…

Ainda há bocado, no carro, quando fui buscar os mais velhos à escola, estávamos a decifrar (leia-se traduzir para português, falar sobre a letra e descobrir os acordes para tocar em casa…) uma música do John Lennon, e falávamos os 3 sobre isso mesmo: de como é muito importante sermos nós próprios e pensar pela nossa cabeça… A Working Class Hero Is Something To Be, uma das minhas músicas favoritas e das primeiras que cantei aos  meus filhos…

As soon as your born they make you feel small,
By giving you no time instead of it all,
Till the pain is so big you feel nothing at all,
A working class hero is something to be,
A working class hero is something to be.
They hurt you at home and they hit you at school,
They hate you if you’re clever and they despise a fool,
Till you’re so fucking crazy you can’t follow their rules,
A working class hero is something to be,
A working class hero is something to be.
When they’ve tortured and scared you for twenty odd years,
Then they expect you to pick a career,
When you can’t really function you’re so full of fear,
A working class hero is something to be,
A working class hero is something to be.
Keep you doped with religion and sex and TV,
And you think you’re so clever and classless and free,
But you’re still fucking peasents as far as I can see,
A working class hero is something to be,
A working class hero is something to be.
There’s room at the top they are telling you still,
But first you must learn how to smile as you kill,
If you want to be like the folks on the hill,
A working class hero is something to be.
A working class hero is something to be.
If you want to be a hero well just follow me,
If you want to be a hero well just follow me.

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23 thoughts on “working class hero

  1. Já venho atrasada para comentar, mas apetece-me dizer que quem só te conhece daqui pode não perceber que ainda és muito mais do que o que aqui mostras!

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  2. Identifico-me muito com as tuas palavras, sempre inspiradoras!!!
    Também gosto de fazer trabalhos manuais e se pudesse também vivia deles, mas infelizmente não pode ser (ainda, quem sabe um dia) e, por isso, também aproveito o melhor possível os serões e os fds…
    Continua a trabalhar e a escrever!!!
    Para quando uns vestidinhos para as meninas??? A Primavera está por aí a rebentar (embora hoje não tenha parecido), mas fico à espera… quero pelo menos um para a minha princesa…

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  3. (desculpa, carreguei no botão antecipadamente!!!) :)

    Obrigada pela sinceridade e coragem!!!

    É inspirador visitar o teu blog! Continua!

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  4. Ao ler-te lembrei-me de um excerto da sabedoria chinesa do Tao Te Ching (Simplify)
    “If we could discard knowledge and wisdom
    Then people would profit a hundredfold;
    If we could discard duty and justice
    Then harmonious relationships would form;
    If we could discard artifice and profit
    Then waste and theft would disappear.

    Yet such remedies treat only symptoms
    And so they are inadequate.

    People need personal remedies:
    Reveal your naked self and embrace your original nature;
    Bind your self-interest and control your ambition;
    Forget your habits and simplify your affairs.

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  5. Parece que veio mesmo a calhar ler o que escreveste. Para mim, e pelo que leio, para muitos outros.
    É dificil subsistir numa sociedade orientada para o capitalismo e num pais que não se sabe valorizar e ainda se prende muito a pensamentos precoceituosos e descriminadores.
    Este post deu-me força para continuar e não desanimar. Esperar o essêncial, apenas o essêncial e não me distrair com pormenores sobrevalorizados.
    Um beijinho muito grande.

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  6. Que belo post. Um dos mais bonitos, mais sinceros, mais terrenos. Obrigada pelas palavras de força. eu que tantos dias não arrisco por medo disto e daquilo e do achar que não há nunca o momento certo para arriscar uma muito desejada gravidez. ObriGadA, Rita.

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  7. Identifiquei-me muito contigo! Parabéns pela força, ando a precisar de recarregar energias e faz sempre bem “ouvir” alguém que vai de encontro àquilo que sentimos, somos e, por vezes, esquecemos… Beijos :)

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  8. Que surpresa agradável foi ler este post!
    Assim te mostras ao mundo: “uma mulher de carne e osso”. Agrada-me essa franqueza!

    Precorremos caminhos semelhantes, quer na licenciatura, quer na visão pouco romanceada (desde cedo) relativamente ao mercado de trabalho, quer, parece-me, na forma de estar na vida!

    Ultrapassas-me no nº de filhos, e no manuseio das agulhas, linhas e tecidos! Parabéns!

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  9. Olá, Rita! Não resisti e vou comentar. Ótimo post! Muito honesto. Penso que muitas vezes aquilo que nos falta é olhar para a realidade e abrir mão de algumas ilusões.
    Beijos de quem admira seus talentos.

    Paula de Moraes

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  10. Um post que veio mesmo a calhar para mim. Concordo contigo que é muito importante sermos nós próprios. Mas, por vezes, é tão difícil libertar-nos de crenças antigas. Mas uma vez o pé na mudança não há forma de parar.

    Obrigada pelo teu post. Até breve, Zé V.

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  11. Olá Rita! Desde há algum tempo que tenho lido este blog, apesar de não costumar comentar… mas hoje não pude deixar de o fazer! Encontro-me numa situação nova da minha vida, mudei recentemente de país e depois de 8 anos a ser enfermeira.. encontro-me numa situação em a lingua ( Holandês) me coloca um grande entrave… O meu grande desejo agora é encontrar algo que me faça feliz… Já não interessa a profissão… interessa ter um trabalho que me faça sentir útil e feliz! Eu escolho a felicidade!
    Obrigada pelas palavras , de certa forma libertadoras! Continuarei atenta!

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  12. oh rita, que bonito :-)
    gostei muito de ler. comovi-me (mas a culpa ainda é do reequilibrio das hormonas pós gravidez ;-) )
    um beijinho e fica, fiquem, muito bem.
    r

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