SMAM – o que é artificial é bom?!

(fotografia do site da actriz Lucy Lawless, que deu a cara pelo semana mundial do aleitamento materno em 2002)

Apesar da Semana Mundial do Aleitamento Materno ter ontem chegado ao fim, fazer um só post acerca do tema soube-me a pouco, quando há sempre tanto que fica por dizer, e tanto que é importante dizer.
Os comentários do outro post e os emails que recebi nesse seguimento, que referiam um outro blog na Internet que deu polémica sobre a amamentação, fizeram-me ponderar se devia ou não escrever acerca dessa realidade, da qual eu aliás já tinha conhecimento.
Em primeiro lugar gostava de dizer que não me cabe a mim questionar nem julgar as atitudes dos outros. Considero-me uma pessoa que gosta de respeitar as liberdades dos outros e 100% defensora do direito de expressão.
Mas penso que esse tipo de posturas e afirmações poderão ser penosas para quem está grávida e pensa amamentar ou para quem está a passar por algumas dificuldades no processo da amamentação, e ter um efeito dissuasor ou de frustração, além de passarem uma mensagem totalmente distorcida da amamentação.

Na verdade, hoje em dia há imensas mulheres que não amamentam por opção própria, mesmo quando não têm nenhuma contra-indicação de saúde, nem quaisquer restrições económicas que as façam voltar ao trabalho o mais rápido possível. Por incrível que possa parecer a uma primeira vista, são mesmo as mulheres de estratos sociais mais elevados, com mais formação/educação e capacidade económica que mais cedo abandonam, ou nem sequer iniciam, a amamentação.
Num mundo de aparências, como aquele em que vivemos hoje em dia, de role-models, de personalidades reais ou virtuais que se seguem avidamente este é um péssimo exemplo para qualquer mulher, e pior ainda, vem disfarçado de sofisticação e modernidade.
Porque são as mulheres modernas, giras e sociáveis que não estão para se dar ao trabalho de amamentar, já que a sua vida é muito mais do que fraldas e arrotos, mamadas nocturnas e bebés esfomeados, a chorar pela sua presença insubstituível.
Claro que são mulheres modernas, quem amam perdidamente os seus filhos, que lhes compram os melhores enxovais das melhores marcas, que têm listas intermináveis de toda uma parafernália de acessórios absolutamente imprescindíveis para os seus petizes, e que por isso um biberon é só mais um acessório super-prático e essencial no meio de tantos outros (e se for de design, tanto melhor). As mamas servem para o prazer sexual e para acomodar em soutiens sexy e vistosos, longe da boca de um bebé e perto do olhar de um homem.
É um sinal dos tempos. É um sinal da exploração do corpo da mulher como objecto sexual, é um sinal das escravização das mulheres à beleza e a estereótipos difíceis de chegar, é um sinal de distanciamento emocional entre as pessoas, é o sinal do declínio de um modelo de civilização, em que os seres humanos ainda são mamíferos, e a alvorada de uma outra, tecnocrata e individualista em que os seres humanos são cada vez mais humanóides e autómatos.

Daí eu achar que a amamentação é realmente um bem preciso em vias de extinção, que é necessário proteger acima de tudo. Porque dela depende a nossa condição de mamíferos, porque não há biberon nenhum no mundo que substitua a mama de uma mãe.

Porque uma mãe que dá de mamar não deixa de ter vida própria e passa a ser um objecto ao serviço de um bebé. Nem tão pouco perde o desejo erótico-sexual, antes pelo contrário. Essa é a ideia mais errada que urge desmistificar de uma vez por todas. Há vários estudos que demonstram claramente que as mulheres que amamentam retomam a sua vida sexual mais cedo e com menos problemas do que aquelas que não amamentam, assim como estão muito mais despertas para o sexo.

Compreendo que há mulheres para quem a amamentação é difícil, mas a maioria das vezes isso acontece precisamente por falta de (boa) informação. Compreendo ainda que há outras para quem amamentar é um enorme sacrifício, e que até o fazem pelo menos durante uns meses por saberem o quão importante isso é para os seus filhos.
Porque as vantagens da amamentação são não só físicas, mas acima de tudo emocionais.
Podemos hoje em dia encontrar vários leites de bebé completamente enriquecidos com todo o tipo de nutrientes que estes precisam, com toda a segurança do controlo de qualidade a que as grandes marcas obrigam, fruto de muito anos de pesquisa rigorosa ao mais alto nível. Ainda que não seja nunca a mesma coisa que leite materno, tenho de admitir que pode realmente haver leites muito bons do ponto de vista nutricional.
Mas há uma coisa que não pode nunca ser a mesma: o factor emocional. Um bebé privado da amamentação está também privado de uma série de trocas emocionais, decisivas para o seu bem estar não só enquanto criança, mas pela vida fora.
Enquanto que há alguns nos atrás esta era uma área ainda vazia de estudos de fundo, hoje em dia  é consensual na maioria dos especialistas em comportamento infantil que o factor amamentação é crucial para o desenvolvimento de crianças felizes, saudáveis e emocionalmente sãs.
Já para não falar dos benefícios para as mães: amamentar reduz bastante a probabilidade de vir a sofrer de depressão pós-parto, ajuda a voltar à anterior forma física com extraordinária facilidade, e ainda diminui o risco de vir a sofrer de cancro da mama.

Amamentar ou não amamentar é um direito (será?) de cada mulher. Importa é que faça as suas escolhas de forma informada e consciente, de acordo com aquilo que para si é importante.
E se para uma mulher a sua independência é mais importante do que o benefício de amamentar o seu filho, quem sou eu para dizer o contrário…
Não posso é permitir que  uma opção pessoal e individual(ista) seja vista como moderna e apelativa, nem tão pouco que este tipo de opções sejam vistas como regra quando na verdade são e têm de ser consideradas como excepção.

E por isso dou o meu tempo e a minha energia a ajudar quem precisa em matéria de amamentação, e desmistificar o processo. Será que isso faz de mim uma das piradas da mama? talvez sim, mas não me importo nada.
Felizmente que há cada vez mais mulheres modernas, bonitas e de sucesso a tornarem públicas as suas opções de amamentar.

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17 thoughts on “SMAM – o que é artificial é bom?!

  1. Sou apologista de tudo o que é natural por isso defendo a amamentação. Penso que seja algo instintivo. De tal forma que mesmo tendo sido contra indicada preferi correr o risco e decidi amamentar.
    Tive muito tempo para pesquisar, informar e sondar experiências de outras mães. Há alguma informação disponível o problema é que todos os estudos científicos feitos não são estanques e podem ser refutados a qualquer momento. E as experiências de cada mãe são isso mesmo, de cada mãe.
    Na hora de decisão prevaleceu o meu instinto: o meu peito transbordava de leite (aliás desde os 6 meses de gravidez que tinha leite) estava a arrebentar de tão cheio e a minha disponibilidade para amamentar era tão grande que bastou um dos médicos ter uma decisão contraria aos outros que eu decidi na hora que ia amamentar.
    O nosso alimento é o remédio do nosso corpo. A terra dá-nos o que necessitamos e nós damos aos nossos bebés o que eles necessitam. É muito simples.
    Assim como ninguém tem dúvidas que um adulto que se alimenta exclusivamente de Mcdonalds dificilmente será um adulto saudável, forte, activo e com uma vida longa. O mesmo se passa com os bebés. Atenção que o percentil não é indicador de saúde. São apenas números e estão estandardizados. O organismo de cada bebé é diferente e desenvolve-se de maneira diferente.
    Há que ter uma visão a longo prazo.
    A alimentação que damos aos nossos filhos são os alicerces da sua saúde mesmo antes de eles nascerem. Se estes forem bem construídos estamos a dar uma base forte para a defesa de todo o tipo de doenças e para se desenvolverem.
    E com isto não falo da quantidade do leite (comida) mas sim de qualidade que é bem mais importante. E nada melhor que o nosso leite que é personalizado especialmente para o nosso bebé.
    Tenho a dizer que se nos primeiros tempos foi óptimo. Adorei a proximidade, o facto de voltar ao que era e sentir-me mais sexy com a minha “operação natural” ao peito Também senti que crescia, que maturava.
    Não foi muito complicado dar de amamentar mas já para o fim estava exausta e sentia-me realmente presa.
    Dei de amamentar até aos 16 meses. Há muito que não dormia uma noite inteira. Ela mamava de 2 em 2 horas. A pressão de médicos e familiares e até amigos e desconhecidos também não ajudou. E por fim o facto de ir trabalhar (stress) culminou no fim do meu leite.
    Hoje arrependo de me exigir tanto e ter deixado de amamentar tão cedo de não ter estado tão disponível.
    Ainda hoje não sei se fiz pelo melhor da minha filha. Mas sei que em 2 anos de vida nunca ficou doente e a única vez que adoeceu foi agora que foi para o infantário onde a alimentação dela piorou, além de ter deixado de comer.

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  2. Rita desculpa estar a ocupar o espaço para escrever a uma das mulheres que aqui comentou:

    Luisa Cordeiro não caia nessas falácias de encontrar correlações onde elas não existem. Fará o que entender, como qualquer outra mãe, mas não o faça porque tem uma menina muito saudável que foi sempre alimentada a leite artificial. Goste-se ou não, há estudos sérios, com um elevadíssimo número de casos (e não um como o seu), estudos estatísticos rigorosos, que comprovam as vantagens do leite materno.

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  3. Parabéns pelo post, absolutamente certeiro!
    Amamentei o meu filho até aos 2 anos por opção,apesar de tantas críticas e pressões sociais! Comentários infelizes, injustos e até engraçados, como relacionarem o facto de ser de antropologia e dizerem que o fazia porque nas tribos também era assim…esta foi delirante!!
    Obrigada por defender a amamentação e as maminhas!

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  4. Olá

    Tenho um filho que amamentei até ao 1º ano e uma filha com 4 meses que espero amamentar pelo menos até á mesma idade.
    Não vou entrar na discussão das vantagens da amamentação em relação ao aleitamento artificial, penso que já tudo foi dito a esse respeito. Considero que o leite artificial merece até um lugar no pódio das melhores invenções para os bebes, mas a meu ver só quando não existe outra alternativa e esta é a melhor opção para o bebe e para a mãe.
    Pessoalmente tenho alguma dificuldade em perceber como é que se pode não querer amamentar. A experiência de amamentar é única, é o auge da feminilidade, faz-me sentir poderosa e especial, faz-me sentir fêmea, protectora, faz-me sentir progenitora.
    Ter a capacidade de alimentar é algo indescritível, aconselho vivamente as futuras mães a amamentarem. Se mesmo assim tiverem indecisas abram o dicionário e vejam os sinónimos da palavra artificial.
    Gostaria de deixar “sublinhado” a necessidade de se criar gabinetes de apoio e de incentivo ao aleitamento materno que ajudassem e esclarecessem realmente as mães.

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  5. Li com muiiito prazer este post. Concordo plenamente contigo, eu própria queria escrever sobre o assunto mas, como ando sem tempo, fui adiando. Agora acho que ficou tudo dito.

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  6. Como sempre é um prazer ler o que escreves.
    Claro que é a Amamentação é um tópico “quente”, por todas as razões e mais algumas….e ainda porque é um periodo em que muitas emoções vêm ao de cima quer as Mães queiram lidar ou não com elas….
    E faz me muito sentido que uma Mãe assumida, amamentará com certeza o seu Bebé sem restrições, mas sim em conexão com esta ligação fantástica entre seres, que acontece entre Mães e filhos.
    Agradecida pelo teu contributo para todas as Mães e Mulheres!

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  7. Como sempre as tuas palavras são sábias. A minha experiência na amamentação foi a melhor possivel, mas penso porque também tive a sorte do meu corpo se ter adaptado bem, não ter dores, nem nunca ter gretado, mesmo sem cremes. Foi sempre uma relação pacifica porque de facto é um acto natural. À minha primeira filha dei de mamar até aos 12 meses, porque ela assim o desejou. Estaria preparada para mais tempo. Com o V. dei de mamar até aos 26 meses, apesar de ter sido muito criticada e rotulada pelas pessoas mais próximas. Nunca foi um sacrificio porque sempre achei MUITO MAIS PRÁTICO. Sempre. Trabalho fora de casa, e tenho uma vida social bastante intensa. E amamentá-lo nunca me prendeu. Mas também foi um acto que sempre me deu prazer, no sentido de realmente sentir que a relação entre mãe/bébé se fortalece a cada mamada. Penso que muitas vezes a pressão é a pior inimiga da amamentação. A pressão dos médicos, do percentil, da obrigação. Pode deitar tudo a perder. Na minha opinião se for vista como um castigo, é muito mais saudável não amamentar.

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  8. Olá Ana, obrigada pelo teu comentário!

    Concordo que a forma de colocar a minha argumentação possa ser subjectiva, afinal de contas é a minha linguagem que estou a utilizar ;)

    Mas deixa-me dizer que amamentar reduz efectivamente a probabilidade de ter depressão pós-parto. Não a evita de todo como é lógico, e lamento profundamente que tenhas passado por uma depressão pós-parto por causa das dificuldades e pressões da amamentação.
    E quando digo que reduz, não estou a falar de mim, nem da minha própria experiência, essa sim, que seria subjectiva.
    Estou a falar de vários estudos que referem claramente as propriedades da oxitocina como anti-depressivo.
    Para quem não sabe, a oxitocina também chamada “hormona do amor” é segregada pela mulher em trabalho de parto e está também presente no processo de amamentação. É ela a hormona responsável pelo reflexo de ejecção do leite.
    Daí que não amamentando não se usufrui dos benefícios dessa hormona no nosso organismo.

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  9. A minha experiência de amamentação foi a pior possível, tentei de tudo e fui pressionada a insistir até ao limite, o que me salvou foi a minha obstetra que fez o parto da minha filha Daniela, quando me viu e disse: É para secar e é já! A Daniela amamentada desde os 3 dias exclusivamente a biberão cresceu sempre no percentil 90 , tem 7 anos e assim continua, nunca teve alergias, bronquites, asmas, faltas de ar, infecções, sempre comeu de tudo e com apetite, e fez sonos completos a partir de 1 mês de idade. Por isso tal como diz a Ana Albuquerque Barata : o bom senso de cada Mãe deve ser o critério de avaliação mais tido em conta.
    Quando e se tiver o próximo filho, o meu bom senso e experiência pessoal diz-me o seguinte: É para secar e é já!
    Felicidades a todas as mães as que amamentam, e as que optam por não o fazer.
    Luísa

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  10. Rita,

    Obrigada pelo belissimo post sobre a amamentação!
    Continuo a amamentar a Clarinha, hj com 13 meses, e assim o vou fazer até quando o quisermos, eu e ela :)
    Sinto os olhares e pressoes mas o meu bom senso de mae diz-me para continuar. Para mim é tão natural e prazeiroso!
    Um beijinho desta mamifera,
    Patrícia

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  11. Cara Rita,
    Adoro o teu trabalho e sou uma fervorosa adepta da amamentação. Já pensei em ser voluntária para apoio porque das vezes que precisei, só a Cristina da LLL mo soube verdadeiramente dar.
    Mas não concordo com algumas coisas que dizes, como:
    “factor amamentação é crucial para o desenvolvimento de crianças felizes, saudáveis e emocionalmente sãs (1).
    Já para não falar dos benefícios para as mães: amamentar reduz bastante a probabilidade de vir a sofrer de depressão pós-parto (2),”
    e
    “Além desta pressões, que muitas vezes são incutidas pela própria família e por alguns pediatras mais zelosos do “percentil”(3),”

    A primeira por razões óbvias.
    A segunda porque a grande razão da minha depressão pós-(primeiro)-parto foi na maioria pela minha insistência na amamentação exclusiva e o meu filho ter literalmente passado fome à conta disso.
    A terceira, porque ninguém me convence que um bebé no percentil 10 com amamentação exclusiva é mais saudável que um no percentil 50 suplementado a biberon.

    Isto tudo para dizer que apoio a amamentação a 100%, acho é que a argumentação usada, não é sempre a melhor.

    Beijinhos.

    Ana

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  12. Este tema, em tantos lados que se leia, é fracturante e desgastante.
    Tenho uma filha de 4 anos, que amamentei, mal, até aos 3,5 meses, quase sempre acompanhados de suplemento; ela estava literalmente a passar fome: sem estar doente, só aos 2 meses recuperou o peso de nascença, que era pouco mais do que 2,5kg.
    E tenho outra, quase com 1 ano, que ainda mama, sempre que pode, e eu lhe dê.
    E das 2 experiências, senti uma imensa pressão: da 1ª para amamentar, para tentar, para forçar, sei lá que mais, e a pequenita a definhar; agora, para deixar de lhe dar de mamar, que é um vício, que ela não precisa, e ela cada vez a gostar mais da mama (a verdade é que ainda tenho muito leite).
    Cá para mim, o bom senso de cada Mãe deve ser o critério de avaliação mais tido em conta. E não a experiência de quem amamentou ou de quem não o fez, ou dos motivos que levaram a fazer uma ou outra coisa.
    Fiquem bem e boa amamentação.
    Ana.

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  13. pois eu que tambem me acho moderna e gira dei de mamar todo o tempo que o meu filho e sem horários marcados… era ele quem decidia e fiquei um pouco triste quando ele nao quis mais… tambem, NUNCA deixei de me sentir sexy, e muito menos de fazer sexo/amor com o meu companheiro por causa disso. Se sou mamífera, e posso (atenção cada um sabe de si) hei-de dar mama da mesma forma a um próximo filho. É barato, é nosso saiu do nosso corpo para um corpo que saiu de dentro de nós… pela saude dos nossos filhos:)

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  14. Rita,
    Eu também partilho a opção por amamentar. Adorei fazê-lo sem com isso deixar de ser a mulher que sou!
    Gostei muito deste teu post, aliás como todos que escreves sobre estes temas!
    :)
    MJ

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