Home

Na quarta-feira à noite fui ao cinema.

È realmente um facto assinalável, por duas razões: sair de casa, à noite, num dia de semana e ver Cinema.

O verdadeiro cinema, a chamada 7ª arte, é coisa cada vez mais difícil de encontrar, apesar das inúmeras estreias semanais, da indústria de Hollywood, e dos grandes block-busters comerciais.

Fazer cinema era aquilo que eu dizia que queria para mim quando fosse grande.

A seu tempo descobri que não tinha talento suficiente (sim, acredito que por muita técnica que se aprenda, fazer cinema requerer doses q.b. de sensibilidade e talento), e que gostava mesmo era de desfrutar do cinema. Cinema a sério, daquele tipo de cinema que nos deixa completamente atabalhoados, tal a forma crua com que nos acerta. Daquele cinema cujas imagens ficam dias e dias a habitar a nossa mente. Daquele cinema que nos dá um baque no coração, da forma como expressa exactamente os nossos sentimentos. Daquele cinema poético que nos faz chorar de tanta beleza. Daquele cinema cru que nos faz vomitar perante a crueza das imagens e sentimentos.

Enfim, o cinema que faz pensar, que deixa marcas na alma.

Isso sim, é coisa cada vez mais rara e muito difícil de encontrar nas salas portuguesas

Home, é um exemplo de tudo o que disse: dos sentimentos, à beleza, passando pela crueza das imagens, está lá tudo.

A história é simples, os actores são só 5, a produção apesar de muito cuidada, é igualmente frugal. (rodar todo o filme terá custado certamente menos dinheiro do que filmar uma cena de 1 minuto do último Harry Potter).

Mas nesta história de cerca de 90 minutos cabe tudo.

Os fantasmas do passado, assombrando de forma invisível a mãe, que é o pilar e simultaneamente o carrasco da família, sem sequer sabermos nada acerca dela, além de ser a responsável pela família morar num sítio bizarro (à beira de uma auto-estrada abandonada).

A rebeldia da adolescência, na pele da filha mais velha que incorpora a imagem dos jovens apáticos e completamente desinteressados do mundo que os rodeia.

A sensibilidade poética e introspectiva da filha do meio.

A capacidade criativa, regeneradora e agregadora da família, na pele no filho mais novo.

E tudo o mais que possam imaginar que esteja relacionado com as dinâmicas familiares e a loucura presente nas relações humanas.

É nitidamente um filme feito por uma mulher – Ursula Meier, cuja entrevista acerca do filme pode ser lida aqui.

Recomendo vivamente a todos aqueles que gostem de cinema, e lamento que seja mais um filme sem presença nas salas de cinema.

Felizmente que os Cineclubes ainda fazem um trabalho louvável na divulgação do cinema de qualidade, e parece que hoje, na era das grandes produções, fazem ainda mais sentido do que nunca.

No Cineclube de Santarém (que, para quem ainda não sabe, é outra das minhas “causas” e com o qual colaboro activamente) estavam 9 espectadores a ver este magnífico filme.

Foi pena.

Mas todos saíram marcados por ele, isso posso garantir.

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