duas rodas

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em junho de 2016 troquei o automóvel pela bicicleta.

há já algum tempo que me sentia farta do carro na cidade, e como moro num meio urbano pequeno, em que as distâncias são curtas e o terreno é plano, a bicicleta parecia-me cada vez mais o meio de transporte ideal.

comecei por aderir às bicicletas partilhadas da minha cidade, mas as falhas de funcionamento eram constantes (ora era o terminal das bicicletas que estava fora de serviço, ora eram as bicicletas que não estavam em condições) e optei por comprar uma bicicleta.
(antes que perguntem, ainda bem que o fiz porque o sistema de partilha de bicicletas continua a não funcionar)

tirando algumas visitas a outras cidades, como Amesterdão e Estrasburgo, onde andava de bicicleta como toda a gente, nunca o tinha feito na minha vida diária. mas o processo de habituação foi muito tranquilo e depressa me rendi ao meu novo meio de transporte.
em abono da verdade, tenho de dizer que a minha cidade – Santarém – tem uma rede de ciclovia que, embora seja muito reduzida (uma ou duas ruas) está feita precisamente no meu trajeto de todos os dias.

mas nem tudo são mares de rosas. as ciclovias estão mal feias (por exemplo, ao cruzar passeios, estes não estão rebaixados e há alguns que são tão altos que me obrigam a descer da bicicleta e passar a pé), não há parques onde “estacionar” a bicicleta, o que me obriga a usar os sinais verticais e corrimões quando preciso de deixar a bicicleta em segurança para entrar nalgum lado, e – o pior de tudo – não há nenhum tipo de civismo por parte dos automobilistas e até dos peões.

este ano o meu filho mais novo começou a ir para o infantário e fazemos o trajeto de cerca de 1,5kms de bicicleta. para nós é perfeito: começamos a manhã super bem-dispostos, a cantar pelo caminho, a observar as pessoas e a cidade à nossa volta, em vez de o fazermos num automóvel, chateados com o trânsito matinal.
mas há uma coisa que continuo a não compreender: a raiva (sim, raiva!) que algumas pessoas demonstram ao passar por nós, como se fossemos aliens ou a bicicleta os incomodasse! sim, é verdade que no trajeto em que não temos ciclovia (cerca de metade do percurso de 1,5kms) vamos pelo passeio, que é bastante largo, e sempre do lado de fora do mesmo, a baixa velocidade, e na maioria das vezes até com a bicicleta pela mão.
mesmo quando vamos na ciclovia, e há peões a circular nela, apesar de haver um tapete para peões mesmo ao lado, é raro desviarem-se para que as bicicletas possam circular. mais curioso ainda, é que estas pessoas são as mesmas que não parecem incomodar-se com carros estacionados em cima dos passeios e das passadeiras, mas não deixam de olhar de forma reprovadora para a bicicleta quando passamos por elas.
em frente à escola do meu filho as coisas também não melhoram… à hora de entrada são muitos os carros que entopem a rua, porque os pais não estacionam no sítio devido e preferem parar o carro mesmo à porta para tirar as crianças, e muitos outros há ainda que têm a atitude selvagem e profundamente deseducada de estacionar o carro em frente à rampa de acesso a cadeiras de rodas, carrinhos e bicicletas.

claro que (felizmente!) também há o contrário, pessoas simpáticas, que nos sorriem ao passar, pessoas que nos dão os bons dias, e pessoas como uma senhora velhota que encontramos todos os dias no nosso percurso que já nos disse que vem todos os dias à porta aquela hora à espera que passemos, porque o meu filho lhe diz adeus e dá os bons dias.

há muito tempo que andava para fazer este desabafo, uma espécie de balaço de ano e meio de troca da bicicleta pelo carro. o balanço é claramente positivo, seja em termos de saúde e boa disposição, seja em termos económicos, com quase nenhum dinheiro gasto em gasóleo e estacionamento, seja em termos ambientais, porque menos um carro a circular é sempre menos poluição.
mas não é fácil mudar mentalidades e atitudes pré-definidas.
o civismo ainda é um valor que falta a muita gente e o respeito absoluto pelo automóvel, que tantas e tantas vezes é mais um sinónimo de luxo e status em vez de um meio de transporte parece imperar por estes lados.
é preciso muito trabalho de educação cívica e rodoviária, não basta termos ciclovias e existirem incentivos aos transportes ecológicos, se aqui em Portugal as pessoas parecem depender dos carros como de água para viver.

por isso, da próxima vez que andarem na rua, seja a pé seja de automóvel, olhem para as bicicletas de outra maneira, pode ser?
nós, as pessoas que elegeram a bicicleta como meio de transporte diário, agradecemos ;)

(adenda: a bicicleta é da SportZone – modelo Amesterdam da Berg, a cadeirinha do Xavier é da Decathlon – um modelo de marca portuguesa, made in Portugal, muito fácil de adaptar a qualquer bicicleta, muito confortável e bastante mais barato que os outros modelos que vi, e o cesto grande à frente é uma engenhoca que fiz com a gaveta de uma velha arca frigorífica)

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