domesticidade


Este é sem dúvida o tema quente da blogosfera “crafty” desde a saída do livro da Jane Brocket, e para o qual a Rosa já deu várias vezes o seu contributo na Ervilha cor de Rosa.
A mim também me interessa bastante, e apesar da minha presença recente neste mundo dos blogues, também já me criou algumas interpretações menos correctas acerca da minha pessoa e modos de vida…
Quanto ao livro propriamente dito, não tenho muito a dizer porque ainda não o li, mas acho que quanto mais não seja, está a ser um bom meio de publicidade e que a autora o merece.

A domesticidade era até agora, confesso, uma palavra que não fazia parte do meu vocabulário corrente, apesar de me itnteressar bastante, quer a nível pessoal quer a nível antropológico.

Nunca fui grande apreciadora dos trabalhos domésticos (leia-se limpezas, arrumações, etc…) mas sempre me senti bem a trabalhar num ambiente doméstico e caseiro, e nunca senti que isso fosse diminutório das minhas capacidades intelectuais.
Existe a ideia corrente, fruto do mercado de trabalho bastante competitivo, que uma mulher “realizada” é aquela que tem uma carreira de sucesso, e que está plenamente implantada no mercado de trabalho, longe da “escravidão” e chatices do trabalho doméstico.
Acontece que há cada vez mais mulheres que não se revêm neste perfil, não por não terem competências técnicas e intelectuais para igualar os homens no mercado de trabalho, mas porque preferem um modo de vida diferente. E tod@s somos livres de escolher a forma como vivemos a nossa vida.

No caso concreto de Portugal, consigo entender o preconceito relacionado com os lavores e as artes domésticas, porque tal como a Rosa bem ilustrou neste post, ainda temos demasiado presente o papel do estado novo e a forma como este relegava às mulheres um papel menor na sociedade, às quais cumpria o dever de servir o marido e a família, e onde a domesticidade era de certa forma imposta como uma obrigação.
As coisas estão lentamente a mudar, e há cada vez mais mulheres jovens e menos jovens que não têm medo de afirmar que gostam de costurar, de bordar, de tricotar, de estar em casa com os filhos pequenos, e não sentem nisso qualquer preconceito de mediocridade intelectual ou incapacidade em arranjar um emprego.
Claro que também haverá excepções pela negativa, e que também haverá pessoas que estão em casa porque não têm mesmo outra alternativa.

Enquanto mulheres temos ainda um grande caminho a percorrer, principalmente no sentido de não sermos vítimas de estereótipos de comportamentos por nós criados. Mas acho que toda esta discussão é muito salutar.
Também percebo que muitas das críticas às novas formas de vida doméstica vêm de outras mulheres que terão certamente alguma inveja das vidas perfeitas lidas nos blogues e que certamente não o são… É preciso nunca perder de vista que num blogue o autor só fala sobre o que lhe apetece e só mostra o que quer. O resto do puzzle fica sempre por completar e não se devem tirar conclusões precipitadas acerca de pessoas que nem sequer conhecemos pessoalmente, como foi o caso da Jane…

Não se trata de nenhuma competição entre quem é que tem a casa mais bonita e arranjada, entre quem é que fez o gorro mais perfeito ou a manta mais bela, ou quem é que faz o bolo mais elaborado e saboroso. Trata-se de liberdade de escolha e de não criticar gratuitamente e sem conhecimento de causa as opções das outras pessoas em relação à sua própria vida.

E se quando a minha filha tiver a idade que eu tenho hoje, for igualmente reconhecido o saber enfiar a linha numa máquina de costura, como o trabalho de investigação científica, por exemplo, a batalha está ganha e tudo valeu a pena.
Porque numa sociedade justa e equilibrada todos os saberes e todos os ofícios são necessários, válidos e preciosos. Sejam eles técnicos, científicos, intelectuais ou domésticos.
Porque que eu saiba, todos nós precisamos de uma casa para morar, de roupa para vestir, e de comida para comer, e saber enfiar uma agulha não é sinónimo de incapacidade intelectual, e muito menos de incapacidade de gerar receitas pelos meios do seu próprio trabalho.

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16 thoughts on “domesticidade

  1. Ha alguns anos atras, mais de 10 :)), por causa da profissao do meu marido, que nos obriga a viajar e a viver em sitios diferentes, optei por abandonar o meu curso superior e a perspectiva de uma carreira profissional liberal; nunca me arrependi.
    “Estou” em casa, tenho dois filhos pequeninos, gosto de cozinhar e vejo as tarefas (limpeza e arrumacao) como um mal menor (nao gosto). Aprendi, em garota, com a minha mae e avo materna, a cozer, bordar e a fazer crochet; sao actividades que, juntamente com a leitura, a escrita e o desenho, me fazem muito felizes e me ocupam uma boa parte do dia.
    Nao tenho um Blogue porque as horas do dia sao poucas e as fotografias que coloco no Flickr revolvem a volta de outras coisas que nao sao relacionadas com a minha “domesticidade”…mesmo assim, passo muito tempo a ver as coisa lindas que se vao fazendo por esse mundo fora :)
    Gosto de ser o que sou e gosto da pessoa em que me tornei. A minha opcao foi uma decisao familiar, quase biblica: ficarmos juntos, sempre; onde tu fores, eu irei tambem…com os filhos e o cao , rsrsrs ;D

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  2. Sempre achei estranho os dois extremos, quer a mulher que não sabe montar um casquilho para a lâmpada (porque não quer saber) quer a que não sabe cozer um botão (porque não quer)…
    É normal haver uma extremização dos conceitos após uma opressão, mas acho que 30 e tal anos volvidos do 25 de abril ainda haverem estas ideias começa a ser… idiota?

    Uma mulher, assim como um homem, devem fazer o que acham melhor, para si e para os seus. Eu, por exemplo estou em casa com a minha filha, aproveito agora para fazer o que não tinha tido tempo para fazer antes como colchas para a cama dela e cortinados para sala.
    Faço o que faço porque gosto, porque posso (tenho máquina de costura e sei costurar), e porque… adoro!
    Sei o que sei porque sempre me interessei pelo assunto e a minha avó tinha (e tem) paciência para me ensinar.

    Espero, muito sinceramente, que à minha filha já lhe torçam o nariz e digam com orgulho: “eu nem sei coser um botão…” como se isso fosse bom! Também espero que ela, ao trocar uma lâmpada, não oiça como eu: “é melhor esperares que … (um homem) chegue a casa antes que estragues o candeeiro”…

    Um post dedicado ao preconceito que gostei muito de ler. Obrigada

    Ana

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  3. É tb o que eu penso, o que eu sinto e o que eu faço. Só lamento não o poder fazer em exclusivo, pq são os lavores que realmente me preenchem.
    Desde cedo eu e os meus irmãos ouvimos dos meus pais que: tu vais ser aquilo que quiseres, mas aí, tens que ser bom!

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  4. Gosto de lavores. Muito. À minha volta tenho poucas amigas que partilham esse gosto. Reuno-me com a minha irmã e mais duas amigas para o nosso encontro de “Ateliers Reunidos”, como resolvemos chamar a esse tempo de partilha de criatividade, lazer e boa conversa.
    Todas temos “carreiras intelectuais”, mas conseguimo-nos imaginar a abandoná-las se financeiramente conseguíssemos sobreviver com os nossos lavores. Sobretudo eu que tenho uma filha pequena e projecto mais duas crianças. Quem sabe um dia…

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  5. EM Inglaterra muitas mulheres deixam de trabalhar por conta de outrem depois de terem filhos porque as despesas de cresces ou afins são de tal forma equiparada ao salário que receberiam que “mais vale” ficar em casa. Resultado, quem volta ao trabalho tem prémio. (Este é apenas um comentário informativo que não tem qualquer teor de crítica ou análise à domesticidade, é uma coisa que eu sei através de uma prima que lá vive e que nunca me saiu da cabeça).

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  6. “Trata-se de liberdade de escolha e de não criticar gratuitamente e sem conhecimento de causa as opções das outras pessoas em relação à sua própria vida.”

    Esta frase devia ser emoldurada! :)

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  7. 5 estrelas o teu post.
    só me ocorreu que, tal como o preconceito, a questão económica também tem tido um papel bastante importante nessa escolha.
    por um lado, com os ordenados que ainda se ganham neste país, é inviável para um agregado familiar (sobre)viver com alguma segurança e até qualidade só com um rendimento fixo mensal.
    já assim, o número de agregados familiares sobreendividados não para de crescer. chega a ser assustador.
    por outro lado, uma outra ideia que está também sempre presente a condicionar essa escolha e que tem a ver com o facto de que se algo correr mal no casamento, a mulher tem que ter a sua segurança económica assegurada.
    mas gostei bastante do post; escreves muito bem.
    tudo de bom.

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  8. Na minha experiencia saber tricot, bordar, etc nunca foi visto como sinónimo de incapacidade intelectual. Acontecia-me mais acharem uma coisa fora de moda, mas pelos vários blogs que estão por aí se vê que não é assim. Há muitas jovens mulheres que sabem fazer este novo tipo de artesanato e que o vendem com bastante sucesso, não acha ? O seu blog e o da ervilha são dois bons exemplos.
    Eu fiquei com pena de não ter aprendido a coser à maquina com a minha avó enquanto tive oportunidade :)
    No meu caso trata-se mais de que no fim de um dia de trabalho, com dois filhos, é complicado ter tempo para tudo o que gostava de fazer.

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