a memória do dia 25

Todos os anos é a mesma coisa: chegamos a Abril e as comemorações do dia 25 sabem sempre a pouco, enquanto também passam despercebidas à maioria da população, demasiado preocupada e anestesiada no seu dia a dia, para quem esta data é apenas mais um feriado e uma data histórica no calendário.

Depois, nas vésperas do dia 25, as televisões vão às escolas perguntar aos meninos e meninas se sabem o que foi o 25 de abril, e ouvimos relatos inconstantes, imprecisões históricas, confusão de personagens, e palavras como “liberdade” são usadas como conectores de discurso, sem se perceber muito bem o que significam.

As televisões saem também à rua e fazem a mesma pergunta aos graúdos, que invariavelmente respondem com desalento, e ao mesmo tempo que citam nomes como Salgueiro Maia, dizem pérolas do género “no tempo do salazar é que estávamos bem”. Parece cada vez mais que comemorar o 25 de Abril não é politica nem socialmente correcto.

A esquerda agarra-se a um revisionismo histórico enquanto que a direita pura e simplesmente pretende fazer de conta que esse dia foi um episódio menor na longa história e epopeias do nosso país. Pelo meio, surgem umas iniciativas disparatadas e incipientes, que pretende celebrar “a liberdade”, sem perceberem muito bem o que isso significa, e demasiado ingénuas para fazerem justiça ao grande momento da história contemporânea do nosso país.

Há claramente uma falta de conhecimento em relação ao 25 de Abril, e principalmente à realidade que se vivia no país antes da data.

Hoje já quase ninguém se lembra do que foram 48 anos de ditadura, nem o mal que isso fez ao país e às suas gentes. E essa falta de conhecimento vem sobretudo do pudor de querer saber, parece que há uma espécie de tabu de falar das coisas, meter o dedo na ferida, contar a história com os protagonistas que ainda estão vivos.

Provavelmente devemos estar todos à espera que o 25 de Abril comemore o seu centenário, tal como a República, para então festejarmos em grande, fazermos palestras e grandes exposições, recontando a história da maneira que melhor convém, de forma polida e embelezada, de preferência sem mencionar de sobremaneira os crimes, torturas e atrocidades que se cometeram durante a ditadura, que levaram a que houvesse a ruptura do regime e acontecesse a Revolução.

Eu pertenço à geração pós-25 de Abril. Nasci e cresci nos anos verdes da democracia, num país onde se acreditava que era possível um futuro melhor e mais justo, onde as palavras fraternidade e solidariedade não eram um bicho de sete cabeças. Tive a possibilidade de crescer  numa família e num contexto que me deu acesso a compreender a dimensão de Abril, mas infelizmente cada vez mais constato que esta mesma geração a que pertenço não se comprometeu com a data e não tem nenhuma carga afectiva com ela relacionada.

Vejo isso principalmente nos filhos desta geração, que são também os meus, e que nada sabem, porque nada lhes é ensinado.No currículo do ensino básico é quase inexistente uma abordagem séria e dedicada ao 25 de Abril, e as memórias vão-se perdendo. A informação não passa.

Hoje em dia não se fala do que era portugal antes do 25 de Abril. Quase ninguém se lembra o que foi a guerra colonial, a realidade dos jovens de então, com o seu futuro continuamente em suspenso, o medo, as prisões, a tortura, as deserções, os exílios, a miséria e a ignorância. Já niguém fala da pide, nem questiona os seus métodos, não sei por excesso de pudor se por branqueamento da história.

Parece que não vale a pena, que foi uma página em branco da nossa história e que ninguém quer falar dela. E entretanto vamos perdendo os testemunhos importantíssimos dos que viveram esta realidade, dos perseguidos, dos presos políticos, de todos aqueles que clandestinamente e com grande sacrifício pessoal foram fazendo a resistência.

Por outro lado ainda, a natureza na nossa revolução – única na história – passa também ao lado de todos. Parece que já quase ninguém se lembra que os militares levaram a cabo um golpe de estado não para ficarem no poder, e instituírem eles uma nova forma de ditadura, mas sim para dar a liberdade e democracia ao povo.

Uma revolução onde não foram disparadas armas e se verteram cravos em vez de sangue é uma coisa demasiado bela e poética para cair no esquecimento colectivo.

E é por todas estas razões muitas mais, que amanhã vamos contar o 25 de Abril às crianças. Trazer-lhes o testemunho mais bonito da nossa história, celebrar com histórias e canções aquela que foi…

“…a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo”

7 Comments

  1. Olá Rita!
    Há algum tempo que leio o seu blog e verifico, com alegria, que temos uma geração com muita qualidade e de quem nos podemos orgulhar. Valeu a pena a nossa Revolução colorida e está nas vossas mãos não deixar que caia no esquecimento. Sou do antes e estou no depois e nunca me arrependi, mesmo que a factura esteja a ser mais pesada do que o previsto e o projecto de concretização lento. Esperámos tanto tempo que agora temos pressa, mas não remamos todos para o mesmo lado… Conte aos seus filhos esta história de esperança, eles irão recordá-la.
    Não desista e seja feliz. Um abraço.

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  2. Gostei, foi mesmo muito bom ler as tuas palavras. E é bom que haja pessoas que não desistem de querer contar a nossa história. Parabéns Rita!

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  3. Belo texto, Rita! Deveria constar de um qualquer jornal diário deste país para que os esquecidos pudessem relembrar a importância de tudo o que dizes!

    (Nota: se calhar era necessário aparecer todos os dias do mês de Abril!)

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