8 de março

7/100 #100diasnoblogue

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“Maria Lamas dedicou este livro “a todas a mulheres portuguesas”. Confrontada com a indiferença do governo em relação à condição feminina em Portugal e com o encerramento da última associação feminina que persistia da 1ª República, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, Maria Lamas respondeu que «iria observar como vivem as mulheres portuguesas e confirmar se os seus problemas estão realmente resolvidos». Foi assim que decidiu empreender a grande viagem por um Portugal ditatorial, subdesenvolvido e analfabeto.
Com o lema SEMPRE MAIS ALTO, a escritora viajou de autocarro, de carro, de carroça, a pé, de burro, subiu e desceu montes e vales, falou com centenas de pessoas, tirou centenas de fotografias. Relatou com realismo a vida das operárias, das intelectuais e das
artistas; Fez o testemunho direto do modo de vida das mulheres portuguesas sobretudo as das zonas rurais. Encontrou a miséria, a ignorância, a superstição, o obscurantismo, a falta de condições básicas de higiene e de salubridade e a falta quase total de cuidados
médicos.”
(Fonte: Biblioteca Municipal de Ponte de Sor)

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« Uma camponesa do Alto Minho recebeu do marido, emigrado há dezoito anos na América do Norte, uma carta em que lhe anunciava o seu próximo regresso. Não era, porém, uma carta vulgar. Exprimia alguma coisa mais do que a alegria de voltar para junto da companheira e dos dois filhos que deixara pequeninos, agora homem e mulher feitos. A lembrança da mulher jovem e bela, que ele levara no coração e o acompanhara sempre, persistia. Fora ela que tornara mais forte o seu desejo de triunfar, para voltar, de cabeça erguida, ao lar distante. E recomendava, na sua linguagem de homem de poucas letras, amoroso, mas rude: “Põe-te bonita! Olha que eu vou daqui habituado a ver mulheres muito lindas! Quero encontrar-te como tu eras quando gostei de ti. Vais viver como uma senhora, o tempo dos trabalhos acabou. Quando fores ao meu lado, com os nossos filhos, todos nos hão-de invejar.”

A mulher ouvia e tornava a ouvir ler a carta. Não sabia se era alegria ou tristeza que sentia. O marido voltava. Ela era rica. Ele só agora lho dizia claramente. Porque tinha ela vontade de chorar ? Dizem que também se chora de felicidade… Mas o que lhe martelava o cérebro, magoando-a sem piedade, como se a carta não dissesse outra coisa, eram aquelas frases: “Olha que vou daqui habituado a ver mulheres muito lindas! Quero encontrar-te como tu eras quando gostei de ti.”

Sim, ela fora a rapariga mais bonita da aldeia. Tinha vinte e cinco anos quando o seu homem abalara. Agora estava uma velha… Olhava as mãos calejadas, da cor da terra, e via nelas a sua vida arrastada, toda privações e trabalho, para que as leiras não deixassem de produzir o seu sustento e dos filhos, enquanto o marido andava em busca da fortuna, do outro lado do mar.

Sucumbida, aparvalhada, repetia mentalmente: “Olha que vou daqui habituado a ver mulheres muito lindas!”

Sentia cobardia de olhar-se ao espelho. Bastava mirar as outras mulheres da sua igualha e do seu tempo para se ver… De que servia o marido voltar? Ela sentia-se cansada, velha antes de tempo, e nunca mais estaria à vontade junto dele, depois de receber aquela carta. Que ela nem fazia bem ideia de como seriam essas mulheres muito lindas, numa terra onde tudo era tão diferente, segundo dizia quem de lá voltava.

O seu homem queria-a como ela era quando gostaram um do outro, para gozarem juntos a riqueza que ele ganhara. E ela, de humilhada pela decepção que o marido teria, ao vê-la tão mudada, quase desejava a morte. Assim o confessou, em meias palavras, com lágrimas nos olhos, mas sem pieguice, como se, de repente, tivesse despertado nela a consciência do seu drama e a vida se lhe apresentasse injusta, na sua implacável rudeza.” (p. 101-102)

AS MULHERES DO MEU PAÍS
Maria Lamas, 1948

#diainternacionaldosdireitosdamulher

Cada vez que virem ao longo do dia de hoje uma menção de “feliz dia”, especialmente se vier associada a descontos e promoções e campanhas de marketing misóginas, aí está a vossa resposta à necessidade de existir um dia como este.

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One thought on “8 de março

  1. O meu pai tinha este livro encadernado, como era uso nesse tempo. Quando comecei a ler fiquei escandalizada pois o livro tinha na lombada uma gralha As Mulheres do meu pais. O meu pai que só tinha filhas recomendou-nos a sua leitura que acho que fizemos as três. Infelizmente o livro não ficou para mim.
    Agora ficou-me imensa vontade de o ler. Obrigada, rita

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