barcelona

visitei barcelona pela primeira vez no ano 2000. foi uma visita de fugida, que durou apenas um dia, onde vi a cidade de passagem.
a memória que retive foi boa: uma cidade linda, arquitetonicamente fascinante, cheia de vida e cosmopolita. ficou a vontade de voltar um dia, com mais tempo e mais calma.

essa oportunidade chegou este ano, e pude planear e desfrutar 10 dias na capital da catalunha.

no entanto, apesar de ter gostado muito da cidade, voltei com mais dúvidas do que certezas relativamente a barcelona e principalmente ao turismo massificado que está a tornar a cidade num autêntico parque de diversões (estas palavras não são minhas, mas sim dos habitantes locais).

a verdade é que é quase impossível andar em barcelona sem passar por multidões de pessoas. a cidade, apesar de grande e muito bem dotada de todo o tipos de transportes publicos eficientes, está repleta de gente. demasiada gente. são poucos os catalães que se vêm na rua, isso é mais que certo. mesmo nas zonas mais residenciais e menos turísticas se encontram hordas de visitantes. entrar em qualquer museu ou monumento é sinónimo de ficar mais de uma hora na fila para comprar bilhete, e depois mais uma hora de espera para entrar. não há canto nem recanto onde não se vejam máquinas fotográficas apontadas. não há carrer nem rambla sem rios e rios de gente.

comecei a perceber esta realidade logo no primeiro dia. ao sair da estação de metro da praça da catalunha o cenário era imponente: casario monumental, a rambla a perder de vista em direção ao mar e gente. muita, muita, muita, muita gente.

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pensei “ok, este será o ponto nevrálgico da cidade velha, um ícone da cidade, é normal que assim seja”.
mais à frente, no emblemático mercado “la boqueria” e o cenário repete-se: multidões de turistas e bancas vocacionadas mais para eles do que para os habitantes de barcelona, que ao longo de séculos usavam aquele mercado para fazerem as suas compras de produtos frescos e agora transformado em frutarias e bancas de charme para turistas.

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chegando ao bairro gótico, confirmei as suspeitas que vinha a sentir: esta massificação não é bem vista nem bem-vinda e a atestá-lo não faltam cartazes e faixas nas varandas das casas a dizerem coisas como “volem un bairre digne” “shhh…us plau” “tourist – you are the terrorist” “no volem ser un monocultiu turistic”, entre tantas outras. a par das bandeiras da catalunha presentes em muitas varandas, e apelos ao voto no referendo pela independência a realizar no próximo dia 9 de novembro, as são as frases mais lidas em cartazes afixados um pouco por todos os bairros.

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é certo que setembro ainda é um mês de férias e deslocações a destinos turisticos. é muito provável que parte deste turismo desenfreado abrande a partir de outubro, mas a questão está longe de ser pacífica e uma novidade para os barceloneses. prova disso são os inúmeros documentários e artigos sobre o tema, e a procupação dos habitantes locais em manter o turismo como uma actividade sustentável para a cidade e para as suas vidas diárias.

a questão está longe de ser pacífica. o turismo representa 14% do PIB da cidade, gera emprego e promove ativamente a recuperação de edifícios e monumentos, entre outras mais-valias. a cidade tem vários monumentos considerados património mundial pela unesco, e estes merecem ser visitados por todos. barcelona sem turistas seria certamente uma cidade diferente, para pior.
mas como promover e sustentar o turismo, sem degradar a qualidade de vida dos habitantes locais e sem descaracterizar a cidade?… essa é a grande questão, ainda sem resposta. poderemos dizer que será a grande questão de várias cidades europeias, que têm ganho mas também sofrido com o turismo de massas. a nossa lisboa é só mais um exemplo de cidade a caminho da conversão em parque temático para turistas…

claro que eu também contribui para o numero de turistas de barcelona, e é claro que também eu fui aos sítios turísticos. e é claro que também gostei muito da cidade e do que vi, mas sobre isso falarei noutro post.
hoje, por tudo o que aqui ficou dito, escolho esta foto como postal ilustrado da cidade:

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e recomendo vivamente este documentário, onde está tudo dito. preto no branco.

setembro de novo

setembro é o mês dos recomeços. acabam as férias, e recomeçam as aulas e o trabalho. para mim, é sempre uma espécie de ano novo, sou daquelas pessoas que começa uma agenda em setembro, a acompanhar os novos horários e rotinas da escola das crianças.
os meus horários também se ajustam em setembro, e é neste mês que começo e planeio muitos dos projetos que faço.

este ano não é excepção. depois de uma longa pausa neste blogue, de uma mudança de casa e de um bebé, sinto-me motivada e entusiasmada para voltar ao ritacor de forma mais regular.

a assinalar esse regresso, fiz uma série de pequenas mudanças nesta página, para tornar a sua visualização mais fácil e prática.

por isso, convido-vos a visitar a nova página de patchwork, cheia de imagens dos trabalhos que tenho feito desde que comecei este blogue.

até já*

(re)nascimento

faz hoje dois meses que nasceu o meu bebé – a 13 de abril de 2014.
nasceu pouco passava do meio-dia, depois uma bela noite de lua cheia, tal como a que esteve na noite passada. ao contrário dos outros irmãos, o meu bebé nasceu em casa. na nossa casa, no nosso espaço, nos nossos braços.
a assinalar este nascimento, tão especial como são todos os nascimentos, retomo a escrita neste espaço, o que há tanto tempo não fazia. não que este tenha deixado de ser um espaço pessoal, longe disso. mas a (in)disponibilidade para escrever e a proliferação de tantos blogues neste espaço virtual fez-me abandonar a palavra de forma mais regular, e optar por usar imagens em vez de letras para comunicar com quem me lê/vê.
mas não podia deixar passar em branco o nascimento do meu ultimo filho e falar sobre um tema tão recorrente quanto polémico neste blogue – o parto.

17 anos depois de ter sido mãe pela primeira vez, tive a felicidade de ter o parto que sempre desejei – respeitado. um parto que respeitou a minha fisiologia, que respeitou a nossa vontade, que respeitou os tempos do meu corpo e do meu bebé.
ao contrário do que muita gente pensa acerca dos partos em casa, esta foi uma opção muito ponderada, muito pensada, muito planeada. não foi – nem podia ser – uma opção leviana, só “porque sim”, ou porque “é moda”.
e no nosso caso concreto, sei que foi a melhor opção que podíamos ter feito – por mim e pelo meu bebé…
o xavier esteve pélvico até poucas semanas antes de nascer. foi graças à minha maravilhosa parteira, que fez uma versão externa, que ele se posicionou da melhor maneira para nascer. se não fosse ela, provavelmente ele não teria dado a volta e teria ficado pélvico até ao dia no nascimento, inviabilizando um parto natural. no hospital, a probabilidade de nascer por cesariana seria de 99%…
o xavier nasceu 2 dias antes de ter completado 42 semanas de gestação. provavelmente, e tal como aconteceu nas minhas gravidezes anteriores, se tivesse sido seguida por um obstetra, no hospital, ele já teria dado “um empurrãozinho” ou “uma ajudinha”, porque afinal de contas, o “prazo” já tinha terminado, já havia contrações e era só uma questão de “ajudar” o bebé a vir cá para fora…
o xavier nasceu com 4800kg. provavelmente, num hospital, ter-me-iam dito que seria impossível parir um bebé tão grande sem graves consequências tanto para mim como para ele. teria sido indicada um cesariana, absolutamente desnecessária, com indicação de desproporção cefalo-pélvica.

os cenários que descrevo acima não são do domínio da ficção e muito menos da suposição ou probabilidade. são a realidade da esmagadora maioria dos hospitais e maternidades portuguesas. muitas mulheres grávidas sofrem pressões inimagináveis no momento das suas vidas em que deviam ser (ainda) mais apoiadas e acarinhadas. mesmo que não se apercebam, ou que se sintam muito bem com o acompanhamento que têm, a maioria das mulheres é levada a crer que não consegue, nem pode, parir sem intervenções. que não poderá fazê-lo fora do hospital e sem uma série de intervenções, “absolutamente necessárias” para garantir o seu bem estar e do feto.
não me vou alongar neste debate… já o fiz inúmeras vezes neste blogue, em conversas privadas e em aparições públicas. quem me conhece, sabe que sou uma activistas pelos direitos reprodutores, e que os temas da gravidez e parto me apaixonam de maneira especial.
em 10 anos de activismo já vi de tudo, e principalmente já vi as coisas mudarem em Portugal, ainda que a passos de bebé, ainda que com retrocessos frustrantes.
sei que este é um tema que inflama, ou é preto ou é branco, não há lugar a opiniões cinzentas. hoje não me interessa esgrimir factos e argumentos, já o fiz tantas e tantas vezes. não estou aqui para convencer ninguém, e muito menos para dizer que as mulheres que têm escolhas diferentes da minha (cesarianas, epidurais, etc…) são menos mulheres do que eu, ou que são piores mães.

hoje, acima de tudo, quero celebrar os dois meses de vida do meu filho.
e dizer que sim, é possível. é possível ter um bebé em casa, às 42 semanas, com 4800kg, sem colocar em risco o meu e o seu bem-estar.
e que a alegria de parir um filho assim, de forma livre, consciente e natural é incomensurável. é do tamanho do mundo e de uma felicidade extrema.
que todos os bebés têm o direito de nascer assim e que todas as mulheres têm o direito de passar por esta experiência.

hoje, com uma mão-cheia-de-filhos, sou uma pessoa completa, renascida e agradecida.
agradeço à minha família, que me apoiou incondicionalmente em todo o processo,
agradeço ao meu marido, que esteve sempre do meu lado,
agradeço à minha parteira, sem a qual nada disto teria sido possível,
agradeço aos meus filhos, pela alegria contagiante com que receberam o irmão recém-nascido.