Era um redondo vocábulo…

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Passaram-se ontem 20 anos sobre a morte de Zeca Afonso. Um pouco por todo o país e imprensa nacional se fez alusão à data e à figura, mas muito mais merecia ser feito, dito, escrito e ouvido acerca daquele que foi um grande Homem, artista, poeta e humanista.

Não consigo encontrar na nossa história alguém com as características que vejo no Zeca Afonso. (tenho muita pena de não o ver nos 10 mais dos grandes Portugueses, mas cada vez mais o programa me parece uma fantochada geral, por isso, se calhar, até é um elogio ele não constar na lista dos 10 primeiros…)

Toda a gente conhece Zeca Afonso, toda a gente já ouviu umas quantas músicas dele, toda a gente o associa à voz da repressão fascista no nosso país. Mas quantos serão os que compreendem verdadeiramente a dimensão do homem em causa? Quantos conhecerão a sua vastíssima obra, se orgulham da beleza da língua portuguesa falada nas suas palavras, a dão a ouvir aos filhos, a fazem perdurar no espaço e tempo, sendo uma obra de uma qualidade inigualável? Muitos poucos, infelizmente.

Como ontem ouvi numa homenagem feita ao Zeca, a melhor homenagem que se lhe pode fazer é ouvir, tocar e cantar a sua música. E isso todos os dias, não apenas em alturas de efemérides.

O Zeca exaltava o verdadeiro mundo e cultura portuguesa, longe do populismo pitoresco e pobrezinho salazarista. Por outro lado, era um surrealista das palavras. Basta ouvir músicas como “Era um redondo vocábulo”, “A acupunctura em Odemira”, “Os eunucos”, “Maio maduro Maio”, “Senhor Arcanjo”, entre tantas outras, para perceber uma modernidade poética sem igual na música portuguesa.

Como ele, também outro Grande Português, Fernando Lopes Graça, procurou encontrar uma sonoridade portuguesa, popular (não populista!) e erudita, pesquisando em instrumentos tradicionais, melodias e poesias.

Se hoje em dia a música popular portuguesa não é só folclore devemo-lo a estes dois homens, e ao seu interesse genuíno na herança cultural Portuguesa.

(Não deixa também de ser irónico o Zeca ser mais acarinhado e relembrado na Galiza do que no nosso país…)

Em relação ao mundo e cultura portuguesa, deixo-vos com dois pequenos texto escritos pelo próprio Zeca Afonso:

Custa-me ver no meu país este massacre contracultural de que estamos a ser vítimas.Tenho uma certa nostalgia de uma certa imagem de Portugal que me foi dada por Raul Brandão, Camilo Castelo Branco, pelo próprio Eça de Queiroz, pela poesia popular portuguesa, pelas adegas que hoje estão a ser substituídas pelos snack-bares, pelos cinemas de bairro que estão a ser substituídos pelos estúdios. Com as minhas canções, gostaria de conservar a cultura sem ser conservador.

“Numa viagem que fiz a Coimbra apercebi-me da inutilidade de se cantar o cor-de-rosa e o bonitinho, muito em voga nas nossas composições radiofónicas e no nosso music­haIl de exportação. Se lhe déssemos uma certa dignidade e lhe atribuíssemos, pela urgência dos temas tratados, um mínimo de valor educativo, conseguiríamos talvez fabricar um novo tipo de canção cuja actualidade poderia repercutir-se no espírito narcotizado do público, molestando-lhe a consciência adormecida em vez de o distrair”.

E não são estas palavras absolutamente actuais?

Zeca Afonso – Agora e Sempre

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