pássaros improváveis

52/100 #100diasnoblogue

parece que reciclar está na moda. e isso é bom!
publicam-se livros sobre o assunto, pululam blogues com ideias de génio(?), fazem-se grupos no facebook, abrem-se galerias no pinterest e por aí fora. todos almejam uma ideia completamente nova, mas no fundo todos pregam o mesmo: reciclar.
o problema, se houver algum algum, está precisamente aí: como tanta coisa que seria normal, natural e expectável de se fazer, de repente parece que ninguém se lembraria de dar novo uso a um objeto (seja ele de vestir ou não) até vir o marketing impingir coisas às pessoas… lá está: mais coisas. e voltamos sempre ao mesmo, tipo pescadinha de rabo na boca.

o que é que eu quero dizer com isto?…
bem, vou tentar explicar: cresci numa família típica de classe média, em que nunca me faltou nada e onde até terei tido mais do que a média da altura. mas SEMPRE me lembro de ver as saias serem feitas com bainha grande, para ir descendo quando era preciso, de ver lençóis transformados em panos de loiça ou em capas de almofadas, de ver camisolas tricotadas à mão serem desfeitas porque a lã ainda estava em excelentes condições e era aproveitada para fazer outra maior ou noutro modelo, de ver remendos nos joelhos e nos cotovelos, feitos com a melhor bombazine das camisas que deixavam de servir, e é claro, de ver a minha bisavó a cortar tudo o que fosse tecido em condições e guardar, tantas vezes transformados em mantas de patchwork, como esta feita pela minha trisavó com restos de camisas e vestidos:

patchwork avó sophia

eram gestos normais e costumeiros, estes que partilho. nada de excepcional. feitos sem muito pensar, de forma automática, não por ser “giro” ou porque ficava bem, mas apenas “porque sim”. era assim que se fazia. e ponto.

agora, se por um lado a moda é dar nova vida às coisas, parece que as pessoas têm de ser ensinadas. ou seja, não se trata de uma real necessidade de dar uma nova vida às coisas, ou de uma coisa natural e espontânea, mas antes de um ato premeditado, como a parvoeira (desculpem-me a crueza) de rasgar calças de ganga de propósito para fazer remendos.

enfim, modas. que, como está na sua génese, tendem a ser passageiras.
espero sinceramente que toda a gente (eu incluída!) consiga cada vez mais olhar para os objetos que nos rodeiam e lhes dê outra vida, em vez de pura e simplesmente deitar fora ou guardar em caixas que nunca mais verão a luz do dia.
mas também espero que esse processo de “dar nova vida” seja orgânico e espontâneo, e não apenas para “ser visto”.

pronto, voltando ao início, que já chega de divagações, aproveito esta tarde quente para mostrar o que foi a manhã no atelier. e tem tudo a ver com isto…
tudo começou em março, mesmo no início da primavera, quando fiz uma limpeza ao roupeiros dos gémeos e tirei de lá uma série de camisas que já não eram vestidas há demasiado tempo.

comecei por desfazê-las para ficar com peças simples de tecido:

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depois, juntei à festa 3 padrões de tecidos com pássaros, que estavam já destinados para uma peça de primavera, tal como tinha feito no ano passado.
fiz um esboço inicial no meu caderno, e entretanto fui fazendo half-squares para ir adiantando trabalho.

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mas não estava 100% satisfeita com o resultado, como acontece tantas vezes (o processo criativo está longe de ser algo linear e replicável, é o que mais tenho aprendido com o meu trabalho!).

por isso, os pássaros e as camisas foram postos de lado, para dar lugar a outras peças e outras criações.

entretanto, antes de ir de férias fiz uma limpeza profunda no atelier. no meio da reorganização, a caixa onde estava este ufo (unfinished object) chamou por mim e acabei por estar a trabalhar nele mesmo até ao ultimo minuto antes das férias.

fiz várias experiências, e percebi, finalmente!, o que queria fazer :)

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e sabem o que é?… um value quilt!
pareceu-me a maneira perfeita de dar vida a esta profusão de padrões improváveis, e comecei a dar-lhe forma na minha parede de trabalho:

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entretanto, já cresceu até aos 216 blocos e está na tábua de passar, quase pronto a ser acolchoado.
quer isto dizer que tenho trabalho para o fim de semana.
;)

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2 thoughts on “pássaros improváveis

  1. Não podia estar mais de acordo contigo!

    Também eu sou oriunda duma família de classe média, onde nada me faltou. Mas onde tudo se “reaproveitava” (outro grande chavão dos nossos dias) e tudo se reparava, enquanto fosse possível.

    Em minha casa remendava-se a roupa que se estragava: a minha mãe tirava punhos e colarinhos de camisas que se tivessem estragado para pôr em outras que tivessem colarinhos ou punhos puídos. Os fechos das saias e calças eram substituídos (algo que só recentemente ganhei coragem para fazer, por clara falta de experiência).
    O mais curioso é que me ficou da minha mãe guardar os retalhos que tiro sempre das calças que compro (sou baixa e por isso sobram sempre uns 10 a 15 cm de tecido na perna das calças) e há pouco tempo precisei de remendar uns jeans. E onde é que fui buscar o tecido para o fazer?! À caixa dos retalhos da sobra das pernas , que eu sempre guardei. Também foi nessa caixa que encontrei um retalho para remendar os joelhos dos jeans do meu filho. Os bodys dele de bebé, foram à tesoura e passaram a servir de camisola interior (sem o “entre-pernas”).
    Vestidos meus que deixaram de servir no peito, passaram a ser saias recentemente. Há um roupão de banho do meu marido que está para ser retalhado em toalhetes de casa de banho.
    Calças dele serão calções de verão e o que sobrar vai ser uma bolsa para as ferramentas dele da mota.

    Em minha casa os electrodomésticos que avariavam eram arranjados e raramente substituídos por novos, que é outra coisa que se foi perdendo com a sociedade orientada para o consumo. Por isso quando algo se avaria, tendo a querer mandar arranjar, mas depois deparo-me com outro problema: onde encontrar pessoas que o façam…

    Às vezes vejo-me a fazer estas coisas naturalmente, porque algo me ficou na massa do sangue, e rio-me comigo mesma porque penso: ah se os meus pais me vissem agora, até se iriam rir de mim!

    Essa combinação de tecidos, aparentemente improvável, acabou por se revelar perfeita!

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